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A democracia não é a bala de prata que extermina todos os inúmeros males da convivência entre os homens, porém é a melhor forma de governo dada a ineficiência e a natureza bárbara de todas as outras. Raciocínios assim permeiam comédias inteligentes, como são sempre as boas comédias, que castigam os costumes pelo riso e levam a imagens vívidas deste nosso vasto mundo feito um lugar mais e mais caótico, chafurdando no opróbrio e atolado na total falta de lógica e no desprezo pela sensatez. Pouca gente sabe explorar com tanta argúcia a cadência vesana da pós-modernidade como Sacha Baron Cohen, e “Ali G: Who Iz I?” prova. Vinte e quatro anos depois de “Ali G Indahouse” (2002), dirigido por Mark Mylod, Cohen ressuscita o comediante que ganhou destaque na televisão com um politicamente incorreto involuntário, emissor-alvo das piadas. Como já se poderia supor, seu reinado não sobreviveria à patrulha cada vez mais ostensiva (e raivosa) do feminismo, do identitarismo, dos movimentos raciais e em defesa dos gays — além, claro, da imprensa — e ele vai a pique.

O absurdo continua

Depois que seu programa é sumariamente cancelado, Ali G volta a Staines-on-Thames, cidadezinha bucólica às margens do Tâmisa. Ele não sabe muito bem como será sua vida agora, prestes a ser pai e desempregado, portanto está decidido a aceitar qualquer trabalho que lhe ofereçam, e até parece entusiasmado com a chance de lidar com plantações e os animais de uma fazendola. Ninguém fica exatamente surpreso com o fracasso de Ali G em sua empreitada rural, porém a maneira como ocorre dá uma boa medida da inadequação fundamental do protagonista, sequência tola a um olhar ligeiro, mas que Cohen consegue transformar num dos pontos altos do humor nonsense do filme. Essas passagens do desditoso Ali G juntam-se às sacadas de Cohen na pele de Nira Cain-N’Degeocello, o professor de estudos de gênero do Reed College, e Erran Morad, ex-agente do Mossad, expert em antiterrorismo e alto-oficial das Forças de Defesa de Israel. Cohen estreia na direção apontando a intolerância da extrema-direita xenófoba, enquanto também lamenta o teor não menos autoritário da esquerda liberal — em nome da civilidade, por óbvio. Se apenas a uns poucos privilegiados cabe o direito ao riso, onde está a democracia? A liberdade resistirá aos paladinos do bom, do belo e do justo? Nem Ali G nem gênio algum da economia de mercado ou da sociologia política tem a resposta, mas a sanha por poder dos novos tiranos nunca arrefece.


Filme: Ali G: Who Iz I?
Diretor: Sacha Baron Cohen
Ano: 2026
Gênero: Comédia
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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