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Por que o mais humano dos sentimentos muitas vezes não é o bastante para humanizar gente embrutecida e paralisada em sua tristeza? Porque dores que se eternizam matam toda possibilidade de afeto mais duradouro, e aí frustrações e rancores envenenam tudo. Evidentemente, não se pode ter respostas prontas ou receitas milagrosas para debelar as crises mais íntimas e violentas de uma pessoa, mas Don Roos ousa apontar alguma luz no fim do túnel em “As Coisas Impossíveis do Amor”. Roos faz do romance homônimo da israelense-americana Ayelet Waldman uma sequência pungente de desencontros, coroada por uma categoria bastante peculiar de solidão, demônio que Emilia Greenleaf tenta exorcizar. As angústias da protagonista, uma mulher em permanente instabilidade, vão urdindo um melodrama entre lúgubre e auspicioso, explicando uma alma que anseia por libertação.

Torrente de paixão

A sequência de abertura dá uma ideia do brutal descompasso entre o que Emilia queria ser e aquilo que se tornou. Ela sai de Harvard pronta para conquistar o mundo, e essa sensação ganha força quando é admitida como sócia de um escritório de advocacia de Manhattan — também por influência do pai juiz —, mas aos poucos desenha-se sua verdadeira condição. Cresce um mal-estar entre ela e os demais funcionários, começando por Marilyn, a secretária abelhuda interpretada por Mary Joy, e o diretor-roteirista sabe juntar os diversos fragmentos da história a fim de convencer o público de que Emilia está mesmo encurralada. Ela comparece ao jantar de fim de ano da firma com um vestido de decote generoso, tenta uma conversa amigável com Carolyn, a esposa do chefe, mas acaba metendo os pés pelas mãos. Não é exatamente uma surpresa sua paixão por Jack, mas o caso deles avança rápido demais.

Alguém tem que ceder

Jack deixa Carolyn para ficar com Emilia, talvez mais mexido pela gravidez dela do que propriamente apaixonado. O argumento central do filme torna-se mais óbvio conforme Roos vai explorando a difícil relação de Emilia e William, o filho de Jack, e isso é o mais importante aqui. A hipótese de que Emilia de fato esteja sendo punida por ter motivado o término do casamento de Carolyn e Jack é uma constatação tão perversa quanto inescapável sempre que se menciona a morte de Isabel, aos três dias de vida, nos braços da mãe. William faz questão de ser desagradável, desumano até, ao sugerir que coloquem à venda o berço e o carrinho da bebê, e o enredo equilibra-se cada vez mais na linha tênue de desconforto e ternura que Natalie Portman e Charlie Tahan levam com destreza admirável. Portman faz o que fará com ainda mais primor em “Cisne Negro” (2010), de Darren Aronofsky.


Filme: As Coisas Impossíveis do Amor
Diretor: Don Roos
Ano: 2009
Gênero: Romance/Drama/Comédia
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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