Que atire a primeira pedra quem nunca se flagrou atormentado por aquelas sufocantes crises de consciência, vindas à luz depois de anos de contas a ajustar com seu passado. Quando há ainda um fenômeno sobrenatural nessa fonte de angústia e desespero obstinado, nunca se sabe aonde pode levar o incômodo, às vezes até bem mais longe do que se supõe, premissa que ganha força em “O Convento”. Christopher Smith deslinda temas sempre controversos como possessão demoníaca, magia negra e mediunidade expondo as fraquezas de uma mocinha demasiado humana, equilibrada, atenta às necessidades alheias, porém incapaz de contornar um drama íntimo. O diretor vai ao fundo dessas questões, juntando estilo e vigor semântico, sem que nada caia do azul. Aqui, o mistério tem lógica.
Revelação
Uma senhora de classe média é atendida por Grace, que lhe apresenta um quadro grave de degeneração macular. A mulher não pode custear o tratamento, mas Grace promete ajudá-la, e procura um amigo e ex-professor, um oftalmologista de renome que não perde a chance de declarar seu encantamento com a ex-pupila sempre que os dois estão a sós. Smith constrói um perfil estimulante de sua personagem central, ao passo que também ludibria o espectador ao conduzir o enredo para uma abordagem um tanto metafísica. Grace é avisada de que Michael, seu irmão mais velho, foi encontrado morto junto com mais um cadáver, e o mal-estar só faz crescer.
O pecado cega
As entidades diabólicas que aterrorizam lugares como Mount Saviour são muito diferentes das que se materializam nas grandes cidades mundo afora. Essa abadia no interior da Escócia desperta um interesse especial nesses espíritos de maldição, dando um ar de estranha banalidade à sucessão de episódios sangrentos que, como se pode intuir, não são só coisa de outro mundo. Pode ter sido essa a razão do desatino de Michael, um consagrado que escolhera Mount Saviour como refúgio da iniquidade terrena, mas Grace, ateia convicta, desconfia de que não há nada de místico nas circunstâncias que precedem o fim do irmão. Smith e o corroteirista Laurie Cook ampliam o leque do fantástico à medida que desvelam o comportamento de Grace em Mount Saviour, sobretudo na presença da madre que dirige o convento e do padre Romero, o enviado do Vaticano para tentar esclarecer o ocorrido. Jena Malone é quem vai costurando esses fragmentos, numa boa parceria com Danny Huston e o detetive Harris de Thoren Ferguson. Como se suspeita a certa altura do segundo ato, Grace não pretende honrar seu nome.

