Homens comuns às vezes têm de enfrentar situações que lhes demandam uma dose generosa de alheamento e um poder extraordinário de superação. Desprendidamente, esses mártires invisíveis resolvem fechar os olhos às iniquidades e passar por cima das mágoas, esforçando-se para tentar viver sem o peso do mundo todo nas costas, mas sempre vem outra provação. Essa é a ideia que se cristaliza em “Fuga Mortal”, uma história sobre um sujeito exemplar cujas certezas são destruídas num único golpe. Mark Vanselow estica aos poucos a corda da violência, apostando num anti-herói tarimbado, trunfo que não deixa de evidenciar limitações. Ex-dublê, Vanselow sabe exatamente o que o espectador quer de seu primeiro filme como diretor — e, por óbvio, de seu protagonista —, mas por alguma razão prefere não avançar muito no labirinto espiritual que o constitui. Essa lacuna incomoda.
Velocidade mínima
Ryan Flanagan é o novo paladino da virtude interpretado por Liam Neeson, que lhe empresta o carisma de sempre. Ex-combatente das Forças Especiais, lembrança que faz questão de cultivar, Flanagan, o Mangusto do título original, regressou do Afeganistão sem esperar nada da humanidade, mas segue particularmente ligado à ex-mulher, Tara, e é aí que o caos o atropela. Tara tem um namorado abusivo, Todd, que morre numa briga algum tempo depois, e as autoridades, claro, responsabilizam Mangusto. Seu niilismo o leva a dar a partida no Mustang Shelby Super Snake GT350 escarlate que impõe respeito, e Vanselow sabe dar uma dimensão meio épica ao roteiro de Thompson Evans, pródigo em perseguições e manobras ousadas. Quem não se arrisca mesmo é Neeson, talvez confiante demais na reputação conquistada com os hoje clássicos longas da franquia “Busca Implacável”. O que poderá vir agora?

