Joe Moore (Gene Hackman) quer deixar o crime depois que uma câmera de segurança registra seu rosto durante um roubo a uma joalheria. Para partir de barco com a mulher, Fran (Rebecca Pidgeon), ele precisa receber sua parte no serviço. O problema é que Bergman (Danny DeVito), o receptador responsável pelo pagamento, se recusa a entregar o dinheiro antes de outro assalto. Ambientado no nordeste dos Estados Unidos, “O Assalto”, de 2001, escrito e dirigido por David Mamet, acompanha um ladrão experiente obrigado a adiar a aposentadoria para roubar uma carga de ouro. Com um chefe desses, até o pedido de demissão vira assunto de polícia.
Mamet estabelece o impasse sem fazer de Joe um criminoso de coração generoso, injustamente perseguido pelos colegas. Ele gosta do ofício, conhece os riscos e trabalha com gente em quem aprendeu a confiar. Mas sabe reconhecer a hora de parar. Hackman dá ao personagem o cansaço de quem já precisou resolver problemas demais e a firmeza de quem ainda consegue resolvê-los. Sua preocupação nasce de algo concreto. Depois de ter o rosto gravado, continuar roubando significa aumentar as chances de ser identificado.
Um pagamento que nunca chega
A exposição de Joe acontece quando ele tira a máscara para se aproximar de uma funcionária da joalheria sem que ela reaja e acabe morta. A escolha preserva a vida da mulher, mas compromete seu anonimato. É uma boa apresentação do personagem porque revela competência e uma margem de humanidade sem pedir absolvição pelos crimes. Ele continua sendo o homem que entrou no estabelecimento para levar o que pertencia aos outros. Apenas prefere sair dali sem deixar um cadáver.
Bergman, por sua vez, não demonstra preocupação com a segurança do parceiro. Já investiu em um novo golpe e considera indispensável a participação de Joe. Para obrigá-lo a aceitar, retém o pagamento do roubo anterior. DeVito interpreta esse sujeito com uma mistura saborosa de ganância e irritação. A possibilidade de alguém ter dinheiro suficiente para parar parece ofendê-lo pessoalmente. Seu raciocínio tem a simplicidade desagradável de um patrão que considera qualquer descanso um desperdício. Enquanto Joe tenta encerrar os compromissos, Bergman inventa mais um.
O novo serviço envolve barras de ouro transportadas em um avião. A mudança de alvo exige preparação para enfrentar a segurança de um aeroporto e deixa pouca margem para improvisos. Joe precisa reunir os parceiros, planejar a operação e manter a atenção sobre quem está pagando por ela. O risco de reconhecimento continua presente, mas o dinheiro retido impede que ele simplesmente vá embora. A aposentadoria passa a depender de mais uma incursão no trabalho que pretendia abandonar.
Um sobrinho no lugar errado
Bergman ainda impõe uma condição adicional. Seu sobrinho, Jimmy Silk (Sam Rockwell), deve acompanhar a equipe para proteger os interesses da família. O rapaz chega com confiança de sobra e experiência insuficiente para sustentá-la. Tem acesso ao grupo por parentesco, uma credencial que costuma produzir aborrecimentos mesmo em atividades menos perigosas. Joe fica encarregado de executar um roubo complexo e administrar um acompanhante que não escolheu.
Rockwell dá a Jimmy uma insolência que perturba a convivência antes de qualquer falha. Ele deseja ser tratado com a importância de um profissional experiente, embora dependa do tio para estar ali. Sua presença incomoda especialmente porque Joe já trabalha com dois homens habituados ao seu ritmo. Bobby Blane (Delroy Lindo) e Pinky Pincus (Ricky Jay) conhecem as exigências dos serviços e dispensam demonstrações constantes de autoridade.
A parceria entre Hackman e Lindo está entre os maiores prazeres de “O Assalto”. Os dois constroem uma familiaridade convincente, com poucas palavras e atenção aos movimentos um do outro. Não é preciso interromper a história para explicar há quanto tempo aqueles homens trabalham juntos. A intimidade aparece na maneira como dividem as tarefas. Jay acrescenta discrição ao conjunto, interpretando um parceiro capaz de assumir diferentes funções sem disputar o comando. Jimmy entra nessa relação com o peso de alguém que pode interferir sem ter conquistado a confiança de ninguém.
Fran entre o marido e o fiscal
Fran também participa dos golpes e desperta o interesse do recém-chegado. Joe pede que ela acompanhe Jimmy e aproveite a atração do rapaz para mantê-lo sob controle. A tarefa cria uma dificuldade pessoal dentro de um acordo já bastante incômodo. Para vigiar o homem enviado por Bergman, Joe aproxima a própria mulher dele.
Rebecca Pidgeon interpreta Fran com uma reserva que combina com essa situação. A personagem precisa conversar, observar e escolher o que revelar. Sua contenção pode deixar algumas passagens um pouco frias, sobretudo quando Mamet insiste em falas muito calculadas. Há momentos em que os personagens parecem preocupados demais em formular a próxima frase engenhosa. Ainda assim, a discrição da atriz preserva o interesse por uma mulher que participa do trabalho e precisa lidar com expectativas diferentes a seu respeito.
A atração de Jimmy acrescenta outra preocupação ao planejamento do roubo. Joe já não precisa pensar apenas na carga, na fuga e no pagamento. Também deve considerar o comportamento do sobrinho de Bergman e os efeitos de sua proximidade com Fran. O serviço fica mais difícil porque os participantes carregam interesses que não cabem no acordo financeiro.
Um roubo cercado de desconfiança
Mamet extrai suspense da diferença entre o que cada personagem sabe e aquilo que decide contar. Ao acompanhar os preparativos para tomar o ouro, o espectador tenta avaliar a competência dos envolvidos e a sinceridade das conversas. As informações chegam aos poucos, preservando a dúvida sobre quem merece crédito. Essa escolha exige atenção, mas recompensa o interesse pelos detalhes do trabalho.
Hackman sustenta essa espera com uma presença que dispensa esforço aparente. Seu Joe conserva a autoridade mesmo quando perde o direito de escolher as condições do serviço. O ator torna convincente tanto o desejo de partir quanto a disposição de enfrentar mais uma operação arriscada. Em “O Assalto”, a vontade de vê-lo escapar nasce dessa contradição bastante humana. Ele sabe fazer o trabalho, já fez o bastante e ainda precisa voltar porque alguém se recusa a acertar suas contas. Antes de embarcar com Fran, terá de levar seus parceiros até uma carga de ouro protegida em um aeroporto.

