Discover

Em Plymouth, Massachusetts, a adolescente Jessica Wright (Nell Verlaque) se torna alvo de um assassino um ano depois de uma promoção de Black Friday terminar em mortes no supermercado de seu pai. O criminoso persegue pessoas ligadas ao tumulto e transforma os preparativos para o Dia de Ação de Graças em uma sequência de ameaças. Dirigido por Eli Roth e lançado em 2023, “Feriado Sangrento” combina investigação, violência gráfica e uma boa dose de deboche com os consumidores que disputam mercadorias sem se importar com quem está pelo caminho.

A confusão começa quando Jessica permite que o namorado Bobby (Jalen Thomas Brooks) e alguns amigos entrem na RightMart antes dos clientes que aguardam do lado de fora. Ao perceber o privilégio dos adolescentes, a multidão força a entrada. O que deveria ser uma noite lucrativa para Thomas Wright (Rick Hoffman), proprietário do estabelecimento e pai da jovem, termina com pessoas mortas e feridas. Bobby sofre uma lesão grave no braço e, depois do episódio, deixa a cidade.

Uma promoção que ninguém esquece

Roth faz dessa abertura o trecho mais vigoroso de “Feriado Sangrento”. Há algo de patético nos consumidores que continuam preocupados com as ofertas enquanto outras pessoas tentam escapar do tumulto. O diretor exagera nos ferimentos, mas a origem da confusão permanece compreensível. Quem ficou esperando na fila se sente passado para trás, os funcionários não conseguem conter a invasão e os produtos se tornam mais importantes que a segurança de qualquer pessoa.

A provocação tem pouca sutileza, o que combina com a proposta. Roth prefere levar a situação ao absurdo e deixar o espectador dividido entre o horror e o riso constrangido. A loja oferece descontos, mas ninguém parece ter incluído atendimento médico no pacote. Por trás da brincadeira cruel, ficam famílias atingidas por uma tragédia que poderia ter sido impedida.

Um ano depois, Thomas prepara outra Black Friday. A disposição para repetir o evento dá um peso desagradável ao que aconteceu. Para o empresário, é hora de voltar a vender. Para quem perdeu alguém ou saiu ferido, a data carrega lembranças bem diferentes. O assassino aproveita esse aniversário para começar a cobrar sua própria conta.

O peregrino passa a perseguir moradores

Vestido com roupas de peregrino e uma máscara de John Carver, o criminoso incorpora a aparência das celebrações locais. Plymouth, cidade associada à história do Dia de Ação de Graças, oferece um cenário conveniente para alguém que deseja circular fantasiado sem chamar tanta atenção. O traje festivo passa a anunciar perigo, e os moradores envolvidos na confusão da RightMart se tornam possíveis alvos.

Jessica e seus amigos recebem ameaças pelas redes sociais. Entre eles está Gaby (Addison Rae), que também precisa lidar com a exposição do grupo. As publicações indicam que o perseguidor conhece seus nomes e sabe da participação deles naquela noite. A adolescente deixa de acompanhar os ataques à distância quando percebe que também está na lista.

Essa ligação com o supermercado dá unidade à investigação. As vítimas têm um passado em comum, e a suspeita de vingança oferece uma razão para a escolha dos alvos. A dúvida passa a ser quem está por trás da máscara e até onde essa pessoa pretende levar a punição. Roth preserva o mistério enquanto apresenta agressões cada vez mais elaboradas, apostando tanto na curiosidade quanto no receio da próxima morte.

Jessica procura ajuda na polícia

Disposta a colaborar, Jessica entrega gravações do tumulto ao xerife Eric Newlon (Patrick Dempsey). As imagens permitem rever comportamentos e identificar pessoas que estavam na loja. Também obrigam a jovem a revisitar um episódio no qual sua participação está longe de ser confortável. Ela não provocou as mortes de propósito, mas sua decisão de abrir a entrada para os amigos ajudou a desencadear a confusão.

Nell Verlaque dá à protagonista uma sobriedade útil em meio aos excessos. Jessica sente medo, procura ajuda e tenta proteger pessoas próximas. A atuação sustenta o interesse por alguém que precisa agir com informações incompletas. Dempsey, por sua vez, oferece ao xerife uma postura contida, coerente com a função de investigar os crimes e atender uma população assustada.

Os personagens ao redor nem sempre recebem o mesmo cuidado. Alguns parecem existir sobretudo para despertar suspeitas ou entrar na contagem de vítimas. Quando a investigação ganha espaço, faz falta conhecer melhor essas pessoas e suas relações. Há pistas e possíveis culpados, mas o interesse por descobrir a identidade do assassino supera o envolvimento com boa parte dos moradores.

A festa deixa todos expostos

Roth se sai melhor quando prepara uma situação perigosa do que quando desenvolve os dramas do grupo. Um objeto comum, um espaço sem saída ou a presença de alguém fantasiado já bastam para colocar o espectador em alerta. A expectativa nasce da espera pelo ataque e da tentativa de imaginar por onde o criminoso vai surgir. Quando a violência chega, o diretor costuma prolongá-la o suficiente para transformar o susto em desconforto.

O humor depende dessa falta de pudor. A decoração acolhedora, a comida e as tradições familiares convivem com uma brutalidade deliberadamente excessiva. Quem procura um suspense discreto talvez se canse cedo. Quem aceita o exagero tem mais chances de aproveitar a criatividade macabra de Roth, embora a repetição das atrocidades desgaste parte do efeito.

A participação da família Wright no desfile de Ação de Graças acrescenta outro risco. A polícia tenta atrair o assassino para um evento cheio de fantasias, distrações e pessoas circulando. Jessica precisa confiar na proteção dos agentes enquanto se expõe em público. Depois de sobreviver à invasão de uma loja lotada, ela volta a estar cercada por uma multidão, agora sabendo que alguém pode estar ali para matá-la.


Filme: Feriado Sangrento
Diretor: Eli Roth
Ano: 2023
Gênero: Suspense/Terror
Avaliação: 3.5/5 1 1
Leia Também