Sam Gillen (Jean-Claude Van Damme) acaba de escapar da prisão quando procura abrigo numa área rural dos Estados Unidos e se aproxima de uma família ameaçada de perder sua casa. Em “Vencer ou Morrer”, lançado em 1993 e dirigido por Robert Harmon, o fugitivo conhece a viúva Clydie Anderson (Rosanna Arquette) e seus dois filhos, que vivem numa propriedade cobiçada por um empresário. Ele precisa manter distância de qualquer confusão para preservar a liberdade. Ainda assim, decide ajudar os moradores, mesmo sabendo que isso pode atrair a polícia até seu esconderijo.
A premissa reúne ingredientes familiares ao cinema de ação, com um homem procurado, uma família vulnerável e adversários acostumados a impor sua vontade. O interesse está na maneira como Sam se envolve naquela casa. Antes de assumir a proteção dos moradores, ele precisa conquistar alguma confiança. Sua chegada tem pouco de heroica. Escondido nas proximidades, observa a residência e entra sem autorização para buscar o que precisa. A necessidade de sobreviver explica seus atos, mas não elimina o desconforto de acompanhar um estranho invadindo o espaço de uma mulher e duas crianças.
Um visitante difícil de acolher
Clydie tenta criar os filhos e cuidar da propriedade depois da morte do marido. As obras de um empreendimento imobiliário nas redondezas perturbam sua rotina e anunciam um problema maior. Franklin Hale (Joss Ackland), o empresário responsável pelo projeto, quer comprar as terras e não aceita a resistência dos proprietários. Permanecer em casa passa a exigir uma disposição diária para suportar intimidações.
Nesse ambiente, desconfiar de Sam é uma atitude sensata. Ele aparece sem dar muitas informações, carrega segredos e tem razões para fugir de perguntas. Rosanna Arquette preserva essa cautela mesmo quando Clydie começa a reconhecer a ajuda oferecida pelo desconhecido. Sua personagem precisa pensar nos filhos antes de permitir que alguém se instale por perto. A gratidão tem peso, mas não deveria valer um atestado de bons antecedentes.
Mookie (Kieran Culkin), o menino da família, se aproxima de Sam com menos reservas. Ao descobrir seu acampamento, abre uma possibilidade de convivência que a mãe dificilmente ofereceria por conta própria. Culkin traz espontaneidade aos encontros e dá ao protagonista uma dificuldade diferente daquelas resolvidas com os punhos. Uma criança curiosa não se satisfaz com silêncio e cara fechada. Sam passa a ter companhia quando o mais conveniente seria continuar invisível.
A ameaça tem dinheiro e influência
Hale conta com Dunston (Ted Levine) para pressionar os moradores que se recusam a vender. A divisão de tarefas é simples. O empresário mantém a aparência respeitável de quem pretende fazer negócios, enquanto seu subordinado assume as intimidações. Ackland e Levine interpretam figuras sem muitas ambiguidades, o que facilita a torcida pela família, embora também torne os adversários previsíveis.
O problema ganha força porque Clydie não pode confiar plenamente na autoridade local. O xerife Lonnie (Edward Blatchford), com quem ela mantém um relacionamento, tem interesses pessoais naquela casa e vínculos com a pressão exercida sobre os proprietários. O uniforme não oferece a segurança esperada. Para Sam, qualquer aproximação da polícia ainda traz um risco adicional, já que sua condição de fugitivo pode ser descoberta.
Quando homens atacam Clydie e as crianças, Sam interfere e os enfrenta. Sua atitude muda a relação com a proprietária, que permite sua permanência no celeiro. Ele conquista um abrigo, mas também deixa de ser um desconhecido de passagem. A partir desse envolvimento, sair dali significa abandonar pessoas que passaram a contar com sua ajuda.
Uma motocicleta e alguma companhia
As melhores passagens entre Sam e Mookie nascem de uma tarefa compartilhada. O fugitivo compra a motocicleta que pertenceu ao marido de Clydie e começa a consertá-la com a ajuda do menino. Há peças para examinar, trabalho para fazer e um motivo para os dois passarem tempo juntos. O vínculo cresce nessas ocupações, sem depender de declarações sentimentais a cada encontro.
Van Damme se sai bem nessa convivência mais reservada. A pouca facilidade para demonstrar sentimentos combina com um homem que precisa controlar o que revela sobre si. Perto de Mookie, sua presença ganha uma delicadeza que os embates físicos não exigem. Sam pode oferecer atenção, dividir um conserto e aceitar companhia, embora continue sem condições de explicar honestamente por que está ali.
A aproximação com Clydie exige mais do ator. Há certa rigidez nas passagens românticas, e Arquette sustenta boa parte da credibilidade do casal. Ela mantém uma mistura de atração e receio que faz sentido para alguém responsável por duas crianças. O visitante a protege, mas também esconde informações capazes de afetar toda a família. Essa diferença entre seus gestos e seus silêncios dá ao romance uma inquietação que o simples encontro entre dois solitários não teria.
Ficar também tem seu preço
Robert Harmon alterna os ataques à propriedade com o cotidiano da casa, dando espaço para que Sam crie vínculos antes de precisar defendê-los novamente. As interrupções violentas ganham peso porque atingem um convívio que vinha oferecendo algum descanso ao fugitivo. A motocicleta, o celeiro e a companhia das crianças deixam de ser detalhes do esconderijo. São compromissos que ele assume enquanto prolonga a permanência.
“Vencer ou Morrer” perde sutileza ao insistir na crueldade dos vilões e resolve parte de suas dificuldades com soluções conhecidas do gênero. Ainda assim, a combinação de ação e vida doméstica dá a Van Damme algo além de inimigos para derrubar. Seu personagem tem um passado que não desaparece por causa de uma boa ação, e Clydie tem motivos para exigir mais do que proteção física.
O envolvimento de Sam com a família sustenta o interesse mesmo quando os próximos passos parecem previsíveis. Ele chegou àquela região para escapar de responsabilidades e acaba assumindo outras, sem ter resolvido as anteriores. Quanto mais ajuda Clydie e os filhos, mais difícil fica preservar o anonimato que lhe permitiu chegar até eles. Cada intervenção em defesa da casa aumenta a chance de perder o próprio abrigo.

