Cicero (Isaiah Mustafa), um homem que sobreviveu à escravidão, chega a Yellowstone City, em Montana, em 1881, procurando um lugar para recomeçar. Seu desejo de pertencer àquela comunidade, porém, esbarra em um assassinato. Depois que um garimpeiro encontra ouro e aparece morto, o xerife Jim Ambrose (Gabriel Byrne) prende o recém-chegado. Começa “Assassinato em Yellowstone”, faroeste de 2022 dirigido por Richard Gray, no qual um pastor e sua esposa passam a questionar uma acusação que parece depender mais da origem do suspeito do que das provas contra ele.
A cidade já conheceu dias melhores. Com o declínio do garimpo, seus moradores perderam dinheiro, trabalho e parte da esperança de recuperar a prosperidade. Quando Robert Dunnigan (Zach McGowan) descobre ouro, a notícia oferece uma perspectiva de mudança. Ele paga bebidas e promete empregos, despertando o entusiasmo de quem precisava de algum motivo para acreditar no futuro. Sua morte interrompe a comemoração e deixa uma pergunta incômoda entre os habitantes. Quem teria interesse em matar o homem que poderia trazer dinheiro de volta à região?
Um suspeito conveniente
Ambrose tem uma resposta antes que as circunstâncias do crime sejam suficientemente esclarecidas. Para o xerife, os moradores conhecem sua autoridade e sabem o que pode acontecer a quem comete um assassinato sob sua vigilância. Cicero, por outro lado, acaba de chegar. A lógica é tão conveniente quanto frágil, mas basta para colocá-lo atrás das grades.
Gabriel Byrne dá ao personagem a segurança de quem passou tempo demais sem ser contrariado. Ambrose acredita conhecer as pessoas que vivem ali e transforma essa familiaridade em garantia de que está certo. Admitir outra possibilidade exigiria rever a prisão e aceitar uma falha de julgamento. Enquanto ele preserva suas certezas, Cicero perde a liberdade e depende da disposição dos outros para ser ouvido.
A condição de homem negro e anteriormente escravizado torna essa diferença de poder ainda mais grave. Cicero procura uma casa, mas recebe o tratamento de alguém cuja presença precisa ser explicada. Mustafa oferece ao personagem uma dignidade que ajuda a perceber o tamanho dessa injustiça. Existe uma pessoa com interesses, lembranças e expectativas por trás do rótulo de estrangeiro, embora o xerife demonstre pouco interesse em conhecê-la.
Uma conversa antes da acusação
O encontro de Cicero com Edgar Blake (Richard Dreyfuss) oferece uma das apresentações mais simpáticas do recém-chegado. Os dois compartilham o gosto por Shakespeare e estabelecem uma conexão que dispensa grandes declarações. Em uma cidade marcada pela desconfiança, conversar sobre literatura permite que ele seja recebido por algo além de sua aparência ou procedência.
Esse detalhe também dá alguma personalidade a um protagonista colocado em uma situação bastante conhecida do faroeste. Cicero tem curiosidade e referências próprias. Não existe apenas para sofrer uma acusação injusta. O vínculo com Edgar permite enxergar a vida que ele poderia construir naquele lugar, caso tivesse a oportunidade. A prisão interrompe essa possibilidade antes que ela ganhe consistência.
Gray manda bem ao dedicar atenção a essas relações, embora nem sempre encontre o melhor ritmo para articulá-las à investigação. O interesse pelos habitantes ajuda a dar espessura à cidade, mas algumas passagens prolongam a espera por avanços no caso. O assassinato de Dunnigan abre perguntas suficientes para sustentar o suspense. Quando a história demora a retomá-las, a duração pesa mais do que deveria.
O casal que contraria o xerife
Alice Murphy (Anna Camp), esposa do pastor local, visita Cicero na cadeia e decide ajudá-lo. Sua participação acrescenta energia à investigação porque nasce de uma atitude simples, mas pouco frequente naquele ambiente. Ela aceita escutar o homem que Ambrose já escolheu como culpado. Ouvir sua versão significa admitir que o xerife pode ter prendido a pessoa errada.
Camp dá firmeza a Alice sem transformar cada intervenção em uma demonstração de coragem. A personagem participa das decisões e assume os riscos de contrariar a autoridade policial. Sua presença também impede que a defesa de Cicero fique restrita a uma disputa entre dois homens influentes. Ela tem iniciativa e obriga o marido a considerar o que fazer diante da prisão.
Thaddeus Murphy (Thomas Jane) precisa conciliar sua função de pastor com a disposição de enfrentar Ambrose. É relativamente confortável aconselhar os moradores enquanto ninguém exige uma escolha difícil. Defender um acusado contra a convicção do xerife já envolve outro tipo de compromisso. O religioso precisa colocar em risco sua relação com a comunidade para ajudar alguém que mal conhece.
Jane aproveita bem esse desconforto. Seu personagem ganha interesse quando precisa transformar a preocupação com Cicero em atitude. A oposição entre ele e Byrne lidera boa parte do drama, sobretudo porque ambos ocupam funções que pressupõem confiança. O pastor pede que as pessoas acreditem em sua palavra. O xerife conta com a obediência delas. A prisão coloca essas duas formas de autoridade em desacordo.
Um mistério que pede paciência
“Assassinato em Yellowstone” combina a busca pelo assassino com o drama de um homem impedido de começar outra vida. O ouro encontrado por Dunnigan acrescenta interesses financeiros a uma cidade onde todos parecem conhecer os vizinhos, mas esse convívio está longe de garantir transparência. Há uma boa história nessa diferença entre a intimidade dos moradores e aquilo que preferem guardar para si.
Richard Gray, porém, dá tantas voltas por esse pequeno mundo que enfraquece parte da urgência criada pela prisão. O elenco mantém o interesse mesmo quando a investigação demora a avançar, e a relação entre Alice, Thaddeus e Ambrose oferece mais força do que algumas das tentativas de prolongar o mistério. O resultado é um faroeste irregular, mas com personagens capazes de sustentar a atenção.
O melhor está na situação de Cicero. Ele chega sem pedir nada extraordinário, apenas a chance de permanecer em algum lugar e viver em liberdade. Depois do assassinato, precisa convencer desconhecidos de que merece sair da cadeia. Alice e Thaddeus aceitam ajudá-lo, mas, para isso, terão de contrariar o homem que possui a chave.

