No fim do século 19, Cicero (Isaiah Mustafa), um homem que escapou da escravidão, chega a Yellowstone, em Montana, à procura de um lugar para morar. A cidade perdeu a prosperidade dos tempos do ouro, mas ainda pode oferecer o que ele deseja, uma vida em liberdade. Sua chegada, porém, coincide com o assassinato de um garimpeiro que acaba de descobrir uma nova reserva do metal. O xerife escolhe o visitante como suspeito, e a busca por uma casa termina numa prisão. Esse é o ponto de partida de “Assassinato em Yellowstone”, faroeste de 2022 dirigido por Richard Gray.
A história combina investigação criminal e abuso de autoridade num lugar onde quase todos se conhecem. Para Cicero, essa familiaridade representa uma desvantagem. Os moradores têm relações antigas, reputações estabelecidas e pessoas que podem falar por eles. Ele carrega um passado doloroso e precisa se apresentar a desconhecidos que logo passam a julgá-lo. Antes de conseguir pertencer à cidade, terá de se defender dela.
Uma descoberta que termina em morte
O garimpeiro Robert Dunnigan (Zach McGowan) encontra ouro quando Yellowstone atravessa um período de dificuldades. A notícia alimenta a esperança de recuperação e dá a ele uma perspectiva de riqueza. Seu assassinato interrompe essa expectativa e deixa uma pergunta que deveria orientar qualquer investigação. Quem teria interesse em sua morte?
O xerife Jim Ambrose (Gabriel Byrne) prefere concentrar as suspeitas em Cicero. A presença do forasteiro oferece uma explicação conveniente para o crime, pois acusá-lo exige menos atrito com os habitantes que já fazem parte da comunidade. A condição de homem negro e ex-escravizado pesa nessa escolha. Ele chega livre, mas sua palavra recebe menos crédito do que a convicção de quem tem uma insígnia.
Richard Gray acerta ao aproximar essas duas situações. Enquanto Dunnigan representa a possibilidade de enriquecimento, Cicero procura algo bem mais básico, segurança para continuar vivendo. O assassinato liga os dois homens e transforma o recém-chegado em alguém cuja liberdade depende de decisões tomadas por outras pessoas.
O xerife confunde certeza com prova
Ambrose considera sua autoridade uma garantia suficiente de que está no caminho certo. Prender o suspeito também reafirma seu poder sobre Yellowstone. O problema é que a investigação exige perguntas, e o xerife parece mais confortável quando os moradores aceitam suas conclusões.
Gabriel Byrne dá peso a essa figura obstinada. Ambrose interessa menos pela ameaça de violência do que pela confiança com que assume o direito de decidir o destino alheio. Ele ocupa um cargo que deveria proteger Cicero, mas usa esse poder para mantê-lo sob acusação. O visitante precisa contestar a versão do homem que controla sua cela.
Essa desigualdade dá à história uma dimensão humana que vale mais do que a curiosidade sobre a identidade do assassino. Há alguém sofrendo enquanto a cidade aceita uma resposta conveniente. Cicero já viveu sob o domínio de outras pessoas, e sua prisão acrescenta uma crueldade particular à promessa de recomeço. A liberdade conquistada continua vulnerável à vontade de quem pode mandar prendê-lo.
Um pastor decide procurar outra resposta
O pastor Thaddeus Murphy (Thomas Jane) e sua esposa, Alice Murphy (Anna Camp), questionam a acusação e decidem investigar o assassinato. Também recém-chegados, eles ocupam uma posição diferente da de Cicero. Podem circular, conversar e procurar informações, embora contrariar Ambrose os coloque em conflito com a autoridade local.
Thaddeus precisa transformar a disposição de ajudar em ação. Defender o acusado exige mais do que palavras de conforto, porque o xerife já tomou sua decisão. Thomas Jane ocupa bem esse espaço entre o dever religioso e a necessidade de enfrentar uma injustiça concreta. Seu personagem passa a ter uma responsabilidade que não pode resolver apenas do púlpito.
Alice participa da busca pelo culpado e dá ao casal uma presença mais interessante do que a de um pastor acompanhado por uma esposa decorativa. Anna Camp ajuda a sustentar essa parceria. Os dois precisam examinar o crime sem contar com a colaboração de quem deveria investigá-lo, e cada contestação aumenta o atrito com Ambrose.
A disputa entre o pastor e o xerife segue uma tradição conhecida do faroeste. São dois homens com autoridade sobre a comunidade, mas com ideias diferentes sobre o que fazer diante de uma acusação. O envolvimento de Alice e a situação de Cicero dão alguma vida a esse desenho familiar, embora certos conflitos permaneçam previsíveis.
A suspeita chega aos conhecidos
Investigar a morte de Dunnigan significa olhar para os moradores que o xerife deixou em segundo plano. O garimpeiro tinha uma vida naquela cidade antes da chegada de Cicero. Sua descoberta de ouro acrescenta interesses financeiros a relações que precisam ser examinadas, por mais respeitáveis que seus envolvidos pareçam.
É nesse ponto que “Assassinato em Yellowstone” ganha força. A confiança distribuída entre os habitantes passa a merecer o mesmo escrutínio aplicado ao visitante. Conhecer alguém há anos pode oferecer conforto, mas também dificultar perguntas desagradáveis. Para procurar o assassino, o casal Murphy precisa enfrentar essa resistência e a certeza de Ambrose.
Richard Gray trabalha com ingredientes tradicionais, entre eles o forasteiro, o homem da lei e a cidade que guarda seus segredos. A combinação desperta interesse, mas a história perde parte da energia quando demora a desenvolver a investigação. O embate entre o xerife e o pastor tem peso, embora nem sempre avance com a agilidade que a situação de Cicero pede.
O melhor de “Assassinato em Yellowstone” está no homem que chegou pedindo tão pouco. Cicero não buscava a fortuna de Dunnigan nem pretendia disputar poder com Ambrose. Queria um lugar para morar depois de sobreviver à escravidão. Mustafa dá ao personagem a importância necessária para que esse desejo permaneça no centro da história. Enquanto os demais procuram o responsável pelo crime, ele depende dessa busca para sair da prisão e voltar a escolher onde viver.

