Discover

É estranho como a pandemia de Covid-19 nos fez ficar trancados em casa por tanto tempo e, ao mesmo tempo, parece ter sido um capítulo tão breve e distante da nossa existência. É um tanto irônico que essa mesma doença, que provocou milhões de mortes no mundo todo, hoje pareça apenas um sonho, um flash de memória, um pequeno buraco no tempo.

Quase todo mundo conhece alguém que morreu de Covid-19. Muita gente perdeu pessoas próximas para a doença. Alguns viram seus negócios falirem, outros precisaram recomeçar a vida do zero. Mas a tecnologia, as redes sociais e a pressa dos tempos atuais nos fizeram deixar esse trauma para trás tão depressa que mal tivemos tempo de digerir nossas perdas.

Um encontro de almas

“O Amor de Sua Vida”, filme dirigido por Rachel Morrison e escrito por Julia Cox, acompanha Maya (Margaret Qualley), uma jovem enfermeira em Boston que conhece Charlie (Gabriel Basso) e se apaixona. Maya não era uma garota romântica, que idealizava o amor ou esperava ser resgatada por um príncipe. No entanto, a chegada de Charlie à sua vida a arrebata da realidade crua para uma fantasia que tantos esperam viver, a do amor verdadeiro.

A conexão, a paixão, o companheirismo e a empatia são muito reais. Os dois vivem um verdadeiro encontro de almas, percebido pelos amigos e familiares ao redor, ainda que essa proximidade também provoque mágoas e ressentimentos. Mas a fantasia se desfaz com a chegada da pandemia de Covid-19. Charlie é asmático, contrai a doença e desenvolve um quadro grave que o leva à morte.

Maya fica desamparada. Imersa na culpa e na tristeza do luto, vai embora sem comparecer ao velório do marido, sem dar explicações à família, sem dizer adeus aos amigos. Em Portugal, trabalha com teleatendimento e tenta, por meio de relações passageiras e descompromissadas, diminuir a dor existencial que a fragilizou completamente.

Até que conhece Felix (Aaron Pierre), também marcado pelo luto, com quem consegue estabelecer um vínculo baseado especialmente na compreensão do que significa perder alguém que se ama.

A dor que mantém o amor por perto

O roteiro nem sempre desenvolve bem a vida de Maya depois da perda, mas essa dificuldade também encontra eco na resistência da personagem em encarar o falecimento de Charlie. Maya não quer se desapegar da dor, porque a dor a aproxima do amor perdido. Superá-la, para ela, seria uma forma de trair o marido. Ao mesmo tempo, não consegue encarar as pessoas que faziam parte de sua vida, porque se sente culpada pela morte dele. Teria de se justificar sem saber como.

“O Amor de Sua Vida” é um drama que não fica cavando lágrimas. Maya não passa o tempo chorando a perda do amor. Pelo contrário, engole tudo e tenta seguir sem enfrentar o passado. A dor permanece ali, mesmo quando ela não fala sobre Charlie ou permite que outra pessoa se aproxime. Para Maya, continuar vivendo ainda parece exigir uma despedida que ela não sabe fazer.


Filme: O Amor de Sua Vida
Diretor: Rachel Morrison
Ano: 2026
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

Leia Também