Nick Eliot (Cary Elwes) chega ao estado de Washington para trabalhar na revista Pique e aluga uma casa de hóspedes na propriedade de uma família. Aos 28 anos, o jornalista procura um lugar para morar enquanto começa no emprego. A escolha se torna um problema quando Adrian Forrester (Alicia Silverstone), a filha de 14 anos dos proprietários, se apaixona por ele e passa a interferir em sua rotina. Esse é o ponto de partida de “Paixão Sem Limite”, suspense de 1993 escrito e dirigido por Alan Shapiro, no qual uma aproximação mal administrada dá lugar à perseguição.
Adrian tem uma vantagem sobre qualquer pessoa que Nick pudesse conhecer na nova cidade. Ele mora a poucos passos da casa dela. A adolescente pode visitá-lo, acompanhar seus horários e puxar conversa sem que sua presença cause estranhamento. Para o jornalista, ela é a filha dos proprietários. Para ela, o novo inquilino representa uma possibilidade amorosa que pretende transformar em namoro.
Silverstone dá à personagem uma desenvoltura que ajuda a explicar a demora de Nick em estabelecer distância. Adrian conversa com segurança, demonstra inteligência e sabe despertar interesse. O problema é quando ele confunde essa desenvoltura com uma maturidade que a garota não tem. A diferença de idade exige uma responsabilidade que o adulto demora a assumir, sobretudo quando aceita a atenção e os elogios sem considerar o que ela espera receber em troca.
O roteiro também participa dessa ambiguidade. Shapiro apresenta Adrian pelo fascínio que ela exerce sobre Nick, mas depois exige que o espectador acompanhe o espanto dele diante da insistência da adolescente. Há algo conveniente nessa distribuição de responsabilidades. O jornalista alimenta a proximidade antes de reconhecer o perigo, embora a perseguição permaneça uma escolha dela.
O favor que ninguém pediu
A intromissão chega ao trabalho quando Adrian reescreve um artigo de Nick sem autorização. O editor gosta do resultado, e o jornalista descobre que recebeu ajuda sem ter pedido. Para quem acabou de chegar à redação e precisa demonstrar competência, a situação é desconfortável. O elogio profissional vem de um texto que outra pessoa alterou às escondidas.
Esse episódio é mais interessante do que uma simples demonstração do talento da garota. Adrian consegue entrar numa área da vida de Nick à qual não deveria ter acesso e ainda lhe oferece um motivo para agradecer. A gentileza traz uma cobrança embutida. Ele pode rejeitar a interferência, mas já se beneficiou dela diante da chefia.
Cary Elwes interpreta Nick com uma cordialidade que beira a omissão. Durante uma festa, o jornalista se impressiona com Adrian ao piano e faz um comentário sobre a possibilidade de se interessar por ela caso fosse mais velha. A intenção pode ser estabelecer uma diferença entre os dois, mas o elogio dá à adolescente uma esperança que ele depois precisará desfazer. Ao aceitar um passeio a sós com ela, Nick prolonga uma situação que já deveria ter interrompido.
A chegada de uma namorada
O envolvimento com Amy (Jennifer Rubin), fotógrafa e colega de trabalho, torna mais difícil sustentar aquela convivência. Amy percebe o interesse de Adrian e aconselha Nick a rejeitar suas investidas. Ela tem menos razões para tratar o assunto com delicadeza e mais facilidade para reconhecer a hostilidade que começa a receber.
Rubin oferece uma presença sóbria, embora o roteiro reserve à atriz um papel bastante restrito. Amy trabalha, se relaciona e manifesta suas opiniões, mas passa a existir cada vez mais em função do ciúme da adolescente. A disputa pela atenção de Nick ocupa o espaço que poderia permitir conhecer melhor a fotógrafa.
Silverstone, por sua vez, aproveita as mudanças de comportamento de Adrian. A personagem pode parecer frágil diante de uma recusa e, pouco depois, agir com a certeza de que alguém lhe deve reparação. A atriz é especialmente convincente nessas passagens menores, quando um olhar ou uma resposta revelam que a conversa tomou um rumo diferente daquele imaginado pelo interlocutor.
Quando negar traz prejuízo
Nick tenta encerrar a aproximação amorosa e propõe que os dois sejam apenas amigos. Adrian reage atingindo seus pertences, incluindo o carro e os discos de computador. O que ele tratava como uma conversa desagradável passa a envolver danos materiais e trabalho perdido. Morar perto dela deixa de ser apenas um inconveniente.
Os pais da garota não aceitam facilmente as suspeitas do inquilino. Nick precisa provar o que afirma, enquanto Adrian conta com a confiança de quem a conhece desde criança. Shapiro aproveita bem esse desequilíbrio. A casa pertence à família, e o jornalista é o recém-chegado que acusa a filha dos anfitriões.
Há, porém, um custo para o suspense quando tanta coisa favorece a perseguidora. A demora dos adultos em desconfiar e a facilidade com que Adrian interfere na vida alheia exigem uma tolerância crescente do espectador. Os exageros enfraquecem parte do desconforto inicial, mais convincente quando nascia de visitas frequentes, favores invasivos e elogios imprudentes.
Nick não precisa procurar uma ameaça distante. Ela conhece seu endereço, acompanha sua rotina e mora na mesma propriedade. Quando ele começa a procurar outra casa, a mudança já deixou de ser uma questão de preferência. O jornalista precisa sair de perto de alguém que não aceita sua recusa.

