Na ilha de Berk, onde os vikings passam a vida combatendo dragões, Soluço (Mason Thames) quer provar que merece o respeito do pai, o chefe Stoico (Gerard Butler). O problema é que o adolescente tem mais talento para inventar equipamentos do que para empunhar um machado. Lançado em 2025 e dirigido por Dean DeBlois, “Como Treinar o Seu Dragão” acompanha esse jovem que, na tentativa de se tornar um guerreiro, acaba fazendo amizade com uma das criaturas que deveria matar. A aproximação coloca em dúvida tudo o que ele aprendeu sobre os inimigos de seu povo.
A versão com atores retoma a história da animação de 2010 e preserva sua principal qualidade. Antes das batalhas e dos voos, existe um garoto tentando corresponder às expectativas de uma família que parece ter recebido o filho errado. Stoico é grande, forte e respeitado. Soluço é desajeitado, curioso e frequentemente tratado como alguém que precisa sair do caminho para os adultos trabalharem. Thames dá graça e sensibilidade a esse desconforto, sem transformar o personagem em um adolescente permanentemente ressentido.
Uma façanha que ninguém testemunhou
Durante um ataque ao povoado, Soluço usa uma de suas invenções para derrubar um Fúria da Noite, espécie especialmente temida pelos vikings. Seria a oportunidade perfeita para conquistar prestígio, se alguém tivesse presenciado a façanha. Ele parte, então, à procura do animal, disposto a conseguir uma prova de que fez algo extraordinário.
O encontro, porém, desmonta seus planos. Diante da criatura ferida e presa, o adolescente não consegue matá-la. A coragem que ele imaginava precisar para agradar ao pai esbarra na experiência de olhar para um ser vivo indefeso. DeBlois reserva espaço para essa hesitação, e o gesto de poupar o dragão nasce de uma reação humana reconhecível. Soluço queria os aplausos pela caça, mas não havia considerado o que precisaria fazer para recebê-los.
Ao libertar o animal, ele também assume um problema. O ferimento comprometeu a capacidade de voo da criatura, que permanece isolada. O rapaz passa a visitá-la e a observar seu comportamento, até que o inimigo ganha um nome, Banguela, e começa a ocupar um lugar cada vez maior em sua rotina.
A amizade exige paciência
As melhores passagens estão nessa aproximação cautelosa. Banguela desconfia, reage, permite algum contato e estabelece a distância que aceita manter. Soluço precisa prestar atenção, algo que os moradores de Berk raramente fazem antes de levantar suas armas. Há ternura na relação, mas também um desconforto necessário. Foi o próprio garoto quem machucou o animal de cuja confiança agora depende.
O dragão preserva expressões e movimentos que favorecem o vínculo afetivo sem apagar sua força. Pode despertar vontade de fazer carinho e, pouco depois, lembrar que possui recursos suficientes para tornar essa uma péssima ideia. Esse equilíbrio dá leveza às visitas e mantém alguma imprevisibilidade no encontro entre os dois.
Para ajudá-lo a voltar ao céu, Soluço constrói uma adaptação para a parte lesionada da cauda. A invenção exige que ambos aprendam a voar juntos, dividindo o controle e os riscos. O talento antes desprezado pelo povoado passa a ter uma utilidade decisiva. Pela primeira vez, o adolescente pode fazer algo importante sem tentar imitar os guerreiros que o cercam.
Um segredo difícil de guardar
Enquanto mantém a amizade escondida, Soluço participa do treinamento para combater dragões. Entre os aprendizes está Astrid (Nico Parker), disciplinada, competitiva e muito mais preparada para os exercícios. Ela tem motivos para estranhar quando o colega desajeitado começa a apresentar resultados que ninguém esperava.
A convivência com Banguela oferece ao rapaz conhecimentos sobre os animais que as aulas de combate não fornecem. Ele aprende a observar reações e a se aproximar de outras maneiras, surpreendendo quem apostava em seu fracasso. A graça dessas passagens vem do embaraço dos colegas diante de alguém que consegue avançar sem recorrer à força que todos se esforçam para demonstrar.
Parker dá personalidade a Astrid, sobretudo quando ela desconfia das novas habilidades do protagonista. A personagem tem ambição própria e não recebe de braços abertos a súbita competência dele. Ainda assim, poderia ter mais espaço. Sua presença desperta interesse suficiente para que algumas passagens deixem vontade de acompanhá-la além da relação com Soluço.
O sucesso no treinamento traz uma dificuldade que o garoto não havia previsto. Quanto mais os vikings o admiram, mais esperam que ele confirme seu valor pelos costumes da aldeia. O reconhecimento tão desejado passa a ameaçar a amizade que tornou suas conquistas possíveis.
O peso das expectativas do pai
Gerard Butler dá a Stoico uma autoridade que ocupa a cena antes mesmo de qualquer ordem. Acostumado a proteger Berk dos ataques, ele considera o combate uma necessidade. Sua resistência às diferenças do filho nasce dessa experiência, embora o afeto nem sempre consiga atravessar a dureza com que o trata.
Os dois desejam uma aproximação, mas discordam sobre o que Soluço precisa fazer para merecer confiança. O pai procura sinais de um futuro guerreiro. O filho começa a descobrir habilidades que não cabem nessa expectativa. Entre eles está Banguela, cuja existência precisa permanecer escondida para que a convivência continue.
DeBlois se mantém muito próximo da animação, o que limita as surpresas para quem já conhece a história. A familiaridade pesa em algumas passagens, especialmente quando a reconstituição parece mais importante do que qualquer descoberta oferecida pelos atores. Ainda assim, o encontro entre Thames e o dragão sustenta o envolvimento emocional.
Nos voos, essa parceria ganha sua expressão mais envolvente. Soluço depende da força de Banguela, enquanto o animal precisa da habilidade do garoto para controlar a adaptação da cauda. A aventura fica mais emocionante quando dá tempo para acompanhar esse aprendizado. Lá em cima, longe das cobranças de Berk, os dois precisam prestar atenção um no outro para permanecer no ar.

