Radha Blank escreveu, dirigiu e protagonizou “The Forty-Year-Old Version”, que lhe rendeu o prêmio de direção na competição dramática americana de Sundance. Na Netflix, a comédia acompanha uma dramaturga perto dos 40 anos que encontra no rap outra maneira de criar.
The Forty-Year-Old Version (2020)
Radha já foi tratada como uma promessa do teatro, mas a expectativa de sucesso não se transformou na carreira que imaginava. Perto dos 40 anos, ela dá aulas e tenta colocar uma peça de pé em Nova York. As oportunidades vêm acompanhadas de exigências sobre o tipo de história que deveria contar. Ao se aproximar do rap e de um produtor musical, descobre um espaço para expressar frustrações que o circuito teatral preferia acomodar de outra maneira.
O filme usa a comédia para examinar quem tem autoridade para reconhecer o talento de alguém. Uma dramaturga negra pode ser convidada a falar de sua experiência e, ao mesmo tempo, pressionada a ajustá-la às expectativas de quem financia o espetáculo. Radha Blank coloca essa contradição no cotidiano de uma personagem que precisa trabalhar, negociar e lidar com o próprio orgulho. O humor nasce das situações e também da distância entre a pessoa que ela esperava ser e aquela que consegue sustentar.
A fotografia em preto e branco, de Eric Branco, dá unidade ao percurso entre salas de aula, espaços de criação e ruas de Nova York. O uso de película de 35 mm aproxima a imagem da tradição de retratos urbanos que inspirou a produção. Ao redor da protagonista, Peter Kim, Oswin Benjamin e Imani Lewis ajudam a compor relações que envolvem afeto, incentivo e cobrança. A cidade aparece como um lugar onde o impulso de criar precisa negociar continuamente com as condições de sobrevivência.
É uma indicação para quem se sente atrasado em relação ao calendário que estabeleceu para a própria vida. A possibilidade de começar outra atividade traz entusiasmo, mas também exposição e constrangimento. Blank permite que a personagem seja engraçada, impaciente e insegura sem exigir que ela se transforme numa lição de superação. A estreia em longa-metragem foi reconhecida em Sundance, em 2020. O prêmio de direção combina com a identidade de uma obra que faz do direito de experimentar sua principal energia.

