Jake LaMotta quer ser campeão mundial de boxe, mas transforma a convivência com a família numa disputa que ninguém consegue encerrar. No Bronx dos anos 1940, o lutador tenta conquistar uma chance pelo cinturão dos pesos-médios enquanto depende do irmão para administrar a carreira. É desse encontro entre ambição profissional e violência doméstica que Martin Scorsese parte em “Touro Indomável”, de 1980. Interpretado por Robert De Niro, Jake suporta adversários duríssimos no ringue, mas recebe qualquer contrariedade dentro de casa com uma desconfiança que ameaça o casamento e a relação com quem mais o ajuda.
Ao seu lado está Joey LaMotta (Joe Pesci), irmão e empresário, responsável por buscar oportunidades e lidar com as exigências do boxeador. Também entra nessa história Vickie (Cathy Moriarty), jovem por quem Jake se interessa quando ainda é casado. Ele a procura, insiste na aproximação e faz planos para tê-la por perto. O problema é que, depois de conquistar sua atenção, passa a vigiar seus gestos. O homem que deseja ser amado parece trabalhar diariamente para tornar esse amor insustentável.
Um irmão entre conselhos e cobranças
Joey conhece o talento de Jake, mas sabe que conseguir uma disputa pelo título exige mais do que vencer lutas. É preciso conversar com empresários, aceitar certas condições e conviver com pessoas que controlam as oportunidades. Jake tem pouca paciência para isso. Quer que a força de seus punhos lhe dê acesso a tudo e se irrita quando o irmão lembra que o esporte também envolve interesses fora do ginásio.
Pesci dá a essa relação uma intimidade reconhecível. Os dois se provocam, discutem e atravessam as falas um do outro com a desenvoltura de quem repete aquele comportamento desde pequeno. Há graça em algumas dessas conversas, sobretudo na impaciência de Joey diante das perguntas insistentes do irmão. O desconforto chega quando percebemos que nenhuma resposta basta. O empresário precisa cuidar da carreira de Jake e ainda provar, a cada discussão, que continua do seu lado.
De Niro torna essa necessidade de confirmação uma das características mais incômodas do protagonista. Jake pode intimidar pela presença física, mas depende da opinião alheia muito mais do que gostaria de admitir. Pergunta, insiste, rejeita o que ouve e volta ao assunto. Joey acaba preso a uma tarefa ingrata. Precisa aconselhar alguém que pede ajuda e se ofende ao recebê-la.
O casamento sob vigilância
Vickie desperta em Jake um interesse que mistura atração e desejo de posse. Ele gosta de sua beleza, de sua companhia e da atenção que recebe dela. Quando os dois se casam, porém, essa admiração passa a justificar cobranças. Um olhar, um encontro ou um comentário sobre outro homem podem virar motivo para um interrogatório. A esposa precisa explicar situações banais porque o marido já decidiu procurar nelas alguma ameaça.
Cathy Moriarty interpreta Vickie com uma serenidade que dá força às cenas. Ela não precisa disputar o volume da voz com Jake para demonstrar cansaço ou desagrado. Muitas vezes, basta a maneira de responder a uma pergunta que já ouviu antes. Sua presença também impede que a história fique restrita aos sofrimentos do pugilista. Enquanto ele se ocupa das próprias suspeitas, ela precisa viver sob a possibilidade de uma nova acusação.
Scorsese não oferece o casamento como promessa de amadurecimento para o protagonista. Jake leva para dentro de casa hábitos que tornam a convivência sufocante. Quer saber tudo, controlar os contatos da mulher e obter garantias impossíveis de fidelidade. Há uma crueldade particular nessa exigência. Vickie precisa se defender de situações que existem principalmente na cabeça dele, e qualquer tentativa de encerrar o assunto pode alimentar outra suspeita.
O ciúme atravessa o ringue
Quando Vickie comenta a aparência de outro boxeador, Jake recebe a observação como uma afronta. O adversário deixa de ser apenas um profissional que encontrará numa luta e passa a carregar uma rivalidade pessoal da qual nem participa. O episódio ajuda a perceber o quanto o lutador confunde competição, desejo e humilhação. Uma conversa doméstica interfere na maneira pela qual ele se prepara para atingir outro homem.
Nas lutas, Scorsese aproxima o espectador do esforço e do castigo físico. A câmera acompanha corpos pressionados, golpes e intervalos que parecem oferecer pouco descanso. O som também retira o conforto de assistir a uma disputa esportiva pela televisão. Há momentos em que permanecer de pé parece importar mais para Jake do que preservar o próprio corpo. Ele aceita apanhar para impedir que o adversário tenha a satisfação de vê-lo ceder.
De Niro dá peso a essa obstinação sem transformar o personagem numa figura admirável por obrigação. Sua resistência impressiona, mas a mesma teimosia cobra um preço de quem está por perto. O talento do atleta permanece visível mesmo quando o comportamento do marido se torna intolerável. A interpretação sustenta essas duas percepções sem pedir que uma apague a outra.
A confiança também se desgasta
Joey acaba incluído nas suspeitas do irmão. Sua proximidade com Vickie, antes parte da convivência familiar, passa a ser examinada por Jake com a mesma hostilidade dedicada aos outros homens. O empresário perde até a liberdade de responder com impaciência. Cada palavra pode abrir uma nova discussão, e o parentesco já não garante que será ouvido.
É nessa convivência que “Touro Indomável” causa seu maior incômodo. Scorsese acompanha um homem capaz de lutar por reconhecimento enquanto desgasta o afeto que já possui. Pesci e Moriarty dão presença às pessoas obrigadas a interromper seus dias para lidar com ele. O interesse por Jake permanece, mas vem acompanhado da exaustão de assistir às suas cobranças. Quando ele volta a fazer uma pergunta, Vickie e Joey já precisam escolher as palavras antes de responder.

