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Mitch Rapp (Dylan O’Brien) sobrevive a um atentado terrorista que mata sua noiva durante uma viagem e decide perseguir os responsáveis. Sem conseguir retomar a vida, dedica seus dias a aprender a lutar e preparar uma vingança. Sua iniciativa chama a atenção da CIA, onde a vice-diretora Irene Kennedy (Sanaa Lathan) enxerga naquele jovem uma possível contratação. Ambientado no universo contemporâneo das operações clandestinas americanas, “O Assassino: O Primeiro Alvo”, de 2017, acompanha essa passagem da perseguição solitária ao trabalho de agente secreto. Sob a direção de Michael Cuesta, Mitch recebe uma oportunidade de transformar sua determinação em profissão, embora aceitar ordens seja uma dificuldade tão grande quanto enfrentar homens armados.

Kennedy entrega o rapaz aos cuidados de Stan Hurley (Michael Keaton), um veterano da Guerra Fria responsável por preparar agentes para missões de alto risco. Hurley recebe a indicação com desconfiança. Para ele, a disposição de Mitch para matar não compensa a instabilidade emocional nem a resistência à autoridade. A dirigente aposta no que o candidato pode aprender. O instrutor precisa lidar com aquilo que ele já carrega, sobretudo a convicção de que tem pouco a perder.

Uma contratação movida pela vingança

Antes do recrutamento, Mitch concentra suas energias na busca pelos terroristas. O treinamento por conta própria lhe oferece uma ocupação e um objetivo, mas também o afasta de qualquer tentativa de elaborar a perda. O’Brien preserva algo de vulnerável mesmo nos instantes de maior agressividade. Há um rapaz ferido por trás do candidato a assassino, e essa percepção ajuda a sustentar o interesse por alguém que passa boa parte do tempo irritado.

A entrada na CIA dá a ele recursos que jamais teria sozinho. Em contrapartida, exige que coloque sua vontade abaixo dos interesses de uma operação. É uma condição especialmente incômoda para quem passou a viver em função de uma caçada pessoal. O roteiro acerta ao fazer desse recrutamento uma escolha discutível. Kennedy contrata alguém talentoso, mas transfere a Hurley a responsabilidade de descobrir se aquele talento pode ser usado sem colocar os colegas em perigo.

Sanaa Lathan interpreta a dirigente com firmeza e discrição. Kennedy não precisa levantar a voz para autorizar uma decisão que outros consideram arriscada. A atriz, porém, recebe menos espaço do que merece. Seria interessante acompanhar melhor os critérios de alguém disposta a incorporar um jovem emocionalmente abalado a uma estrutura com tamanho poder. Sua participação estabelece a aposta, enquanto o convívio entre professor e aluno concentra os melhores embates.

Michael Keaton dá trabalho ao novato

Hurley exige obediência de um recruta que prefere demonstrar competência a escutar instruções. Mitch quer avançar, receber uma missão e chegar aos inimigos. O veterano insiste que capacidade física não basta quando uma atitude precipitada pode comprometer outras pessoas. Entre os dois, cada exercício também vira uma disputa por autoridade.

Keaton faz desse treinador um homem áspero, impaciente e pouco interessado em conquistar a simpatia do aluno. Há alguma graça no tamanho de seu aborrecimento, sobretudo diante da certeza juvenil de Mitch. O personagem tem a expressão de quem recebeu um problema acompanhado de uma ordem para resolvê-lo. O ator aproveita esse desconforto sem transformar Hurley numa caricatura de militar aos berros.

O’Brien sustenta a parceria porque não tenta competir com o colega em presença ou experiência. Seu Mitch reage, insiste e se ressente das restrições. A aparência jovem ajuda a preservar a impressão de alguém que recebeu responsabilidades antes de aprender a administrá-las. Quando os dois dividem a cena, o treinamento ganha uma pergunta relevante. Até onde Hurley pode confiar num aluno que considera a própria intuição mais valiosa do que uma orientação profissional?

A missão exige outros cuidados

A investigação de ataques contra alvos civis e militares leva os agentes a uma operação com Annika (Shiva Negar). O trabalho obriga Mitch a depender de pessoas que têm informações, interesses e responsabilidades próprios. Sua disposição para agir deixa de ser suficiente. Agora, qualquer iniciativa precisa levar em conta quem está ao lado dele.

O alvo dessa missão é Ghost (Taylor Kitsch), um homem com uma vingança pessoal e planos capazes de provocar uma crise internacional. A perseguição aumenta a escala dos perigos, mas também afasta Cuesta da relação mais interessante de sua história. A convivência entre Hurley e Mitch oferece atritos específicos, sustentados pelas escolhas dos personagens. Já a ameaça internacional se apoia em situações mais conhecidas dos filmes de espionagem, com menos tempo para desenvolver quem participa delas.

Kitsch tem a presença física necessária para enfrentar os protagonistas, embora seu personagem merecesse uma construção mais cuidadosa. O desejo de vingança poderia aproximá-lo de Mitch de maneira mais incômoda. Ambos colocam outras pessoas em risco para resolver feridas pessoais, ainda que ocupem lados distintos da perseguição. O roteiro toca nessa semelhança, mas prefere manter a atenção na urgência de deter Ghost.

Um agente ainda em formação

Cuesta oferece ação e mantém a missão em movimento, mas alcança seus melhores resultados quando permite que os atores sustentem a tensão. Uma ordem contrariada e a reação de Hurley podem despertar mais interesse do que a próxima ameaça. Nesses momentos, o perigo tem uma origem próxima. Ele está no comportamento de alguém que deveria colaborar com a equipe.

A principal fragilidade está na generosidade do roteiro com seu protagonista. Mitch recebe oportunidades frequentes de justificar a própria ousadia, o que enfraquece parte das dúvidas levantadas durante o treinamento. Se a iniciativa do novato merece tantas recompensas, a insistência do instrutor em cobrar disciplina perde força. Faria bem à história deixar algumas falhas pesarem mais sobre a confiança depositada nele.

Ainda assim, a parceria entre O’Brien e Keaton dá personalidade a “O Assassino: O Primeiro Alvo”. O jovem oferece uma mistura convincente de ressentimento e determinação. O veterano responde com o desgaste de quem conhece o preço de um erro em campo. Entre exercícios e operações, Hurley tenta preparar Mitch para uma profissão na qual a vontade de acertar não protege ninguém. Antes de autorizar o próximo passo, precisa saber se o aluno vai cumprir a ordem ou obrigar os demais a lidar com sua desobediência.


Filme: O Assassino: O Primeiro Alvo
Diretor: Michael Cuesta
Ano: 2017
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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