A equipe de “The Wire” voltou a Baltimore para adaptar uma investigação sobre policiais corruptos. Com Jon Bernthal, “A Cidade É Nossa”, na HBO Max, transforma o livro do repórter Justin Fenton em seis episódios sobre uma instituição que passou a proteger seus próprios crimes.
A CIDADE É NOSSA (2022)
Wayne Jenkins integra uma unidade encarregada de retirar armas das ruas de Baltimore. O prestígio conquistado pelas apreensões convive com práticas que transformam a autoridade policial em oportunidade de enriquecimento. Enquanto investigadores procuram estabelecer o alcance dos abusos, o cotidiano da cidade revela uma relação profundamente deteriorada entre agentes e moradores. Jon Bernthal interpreta Jenkins; Wunmi Mosaku e Jamie Hector participam de uma narrativa que acompanha diferentes posições dentro desse sistema.
O livro que deu origem à adaptação foi escrito por Justin Fenton, repórter do Baltimore Sun. George Pelecanos e David Simon desenvolveram a minissérie, dirigida por Reinaldo Marcus Green. O reencontro de profissionais de “The Wire”, inclusive integrantes do elenco, tem uma razão concreta: retornar à cidade para examinar um escândalo documentado, com responsáveis identificáveis e consequências que ultrapassam o destino dos envolvidos na investigação.
Há uma pergunta particularmente incômoda nesse material: o que acontece quando uma instituição recompensa resultados sem investigar os meios usados para obtê-los? A produtividade pode virar um argumento de defesa, e a reputação de um agente eficiente pode dificultar a escuta de quem o denuncia. O interesse está em acompanhar essa fabricação de credibilidade, que permite tratar relatos de violência como obstáculos ao trabalho.
A interpretação de Bernthal ocupa um lugar central nesse problema. Jenkins precisa circular como alguém autorizado a mandar, intimidar e definir qual versão dos acontecimentos será aceita. Ao colocar essa presença ao lado das perspectivas da investigação e dos moradores, a narrativa amplia o campo de observação. A questão deixa de caber exclusivamente na personalidade de um policial e passa a envolver procedimentos, incentivos e proteção institucional.
Os seis episódios oferecem um percurso concentrado para quem se interessa por dramas criminais de base jornalística. Conhecer “The Wire” ajuda a reconhecer rostos e preocupações, mas não é requisito. O ponto de entrada é o choque entre uma tarefa pública — proteger a cidade — e as vantagens privadas extraídas dessa autoridade. A investigação importa tanto pelo que descobre quanto pelo tempo durante o qual os abusos puderam continuar.

