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Bula AchadosArte encontrada

A lâmpada já não precisava acender. Nas mãos de James Hampton, podia continuar trabalhando como parte de uma construção religiosa. Móveis usados, potes de vidro e pedaços de papelão também encontravam emprego na garagem que ele alugava em Washington. Cobertos por folhas metálicas, participavam de uma espécie de assembleia solene, organizada em torno de um trono. O homem responsável por aquilo ganhava a vida fazendo a limpeza de um prédio federal.

Hampton trabalhou no conjunto durante cerca de 14 anos, até morrer em 1964. Chamou a obra de “The Throne of the Third Heaven of the Nations’ Millennium General Assembly”, um nome cuja extensão já sugere que suas ambições não cabiam muito bem no endereço. A garagem abrigava um projeto de salvação. A matéria-prima vinha da rua, de lojas de segunda mão e dos lugares por onde ele passava.

A imagem de um trono pode fazer pensar numa cadeira vistosa. O trabalho é mais amplo. Segundo a descrição do Smithsonian American Art Museum, seus componentes se distribuem em fileiras paralelas, em dois níveis, com um assento acolchoado ao fundo. Há simetria, hierarquia e relações entre as partes. O que parece uma acumulação à primeira vista obedece a uma organização que Hampton foi construindo junto com os objetos.

Na disposição descrita pelo museu, um lado se refere ao Antigo Testamento e a Moisés; o outro, ao Novo Testamento e a Jesus. A instalação articula cristianismo e práticas espirituais afro-americanas. Hampton deixou também escritos numa linguagem particular, de interpretação incerta. Convém preservar essa incerteza. Explicar tudo o que ele fazia com uma chave única seria tornar o conjunto mais simples do que é.

O brilho, por sua vez, tem uma explicação material. Folhas metálicas recobrem estruturas feitas com coisas de uso comum. O revestimento aproxima objetos que, antes, não pertenciam à mesma família. A luz passa por cima das diferenças entre uma peça de mobiliário e um recipiente reaproveitado. De perto, porém, a construção continua denunciando o trabalho das mãos.

Há uma economia muito particular nesse procedimento. Aquilo que perdera a utilidade prática ganhava lugar numa arquitetura de fé. A transformação não exigia que o material deixasse de ser frágil. Papelão continuava sendo papelão debaixo da superfície reluzente. O conjunto devia sua grandeza justamente a uma quantidade de pequenas operações, repetidas durante anos, sem a estrutura de um grande ateliê.

Depois da morte de Hampton, a obra saiu do âmbito restrito em que havia sido criada e acabou incorporada ao Smithsonian. A mudança de endereço trouxe outra rotina. Os mesmos materiais encontrados na rua passaram a exigir cuidados de conservação. A equipe do museu estuda e trata componentes que nunca foram fabricados para durar indefinidamente como peças de arte.

O tempo deixou marcas visíveis. O papel roxo empregado pelo artista perdeu cor e hoje apresenta um tom próximo do bege. Esse detalhe, registrado pelo Smithsonian, impede que se trate a instalação como uma aparição intacta. O que se vê resulta também do envelhecimento das coisas, das intervenções necessárias e das escolhas de quem tem a responsabilidade de preservá-las.

É tentador reduzir a história ao espanto diante de um funcionário da limpeza que fazia arte. Mas a ocupação de Hampton não explica nem diminui o que ele construiu. Interessa porque situa seu acesso aos materiais e a divisão de seu tempo. O trabalho estava ali, exigindo decisões de forma, montagem e disposição, mesmo antes de receber um lugar na história da arte.

No alto do conjunto, uma inscrição pede que não se tenha medo. O restante da instalação comunica por outros meios. Um pote, uma lâmpada, uma cadeira, uma folha metálica. Na garagem, Hampton lhes havia atribuído tarefas que não constavam de nenhuma embalagem.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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