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Bula AchadosVestígios de leitura

Num livro de orações produzido por volta de 1510 nos Países Baixos meridionais, três fólios escurecidos chamaram a atenção de Kathryn M. Rudy. As marcas se concentravam perto de uma oração aos 72 nomes da Virgem. Alguém, ou mais de alguém, havia voltado àquelas páginas com uma frequência que o restante do volume não parecia ter conhecido.

O manuscrito, hoje identificado como Ms. 15078 na Biblioteca Real da Bélgica, em Bruxelas, é um dos casos examinados pela historiadora da arte. Ela encontrou ali uma espécie de registro involuntário. O leitor podia não ter escrito seu nome, anotado uma data ou explicado suas preferências. Os dedos, entretanto, haviam deixado trabalho para uma pesquisadora de outro século.

Rudy, da Universidade de St Andrews, levou um densitômetro aos livros. O aparelho permite medir o grau de escurecimento de uma superfície. Aplicado com critério a diferentes pontos de um manuscrito, ajuda a comparar áreas e páginas. Em um artigo publicado em 2010 no Journal of Historians of Netherlandish Art, ela apresentou o método e discutiu o que essas medidas poderiam revelar sobre o uso de volumes medievais.

É uma mudança discreta na maneira de procurar leitores antigos. Em vez de depender apenas de cartas, inventários ou anotações, a investigação observa o desgaste do próprio objeto. A página guarda o texto que se pretendia ler e também alterações produzidas quando o livro foi segurado, aberto, tocado e levado a cumprir alguma função.

Nem toda mancha, claro, veio de uma mão. Rudy distingue sinais de manuseio de danos como os provocados pela água, que podem deixar contornos característicos. Também é preciso considerar a disposição da página e os lugares em que alguém naturalmente apoiaria os dedos. Medir uma área escura é o começo da análise. A interpretação depende da história material do volume.

A oração dos 72 nomes oferece uma pista justamente porque o escurecimento aparece de maneira concentrada. A comparação entre as folhas permite levantar a hipótese de uma consulta insistente àquela parte do livro. Seria imprudente transformar o indício numa confissão recuperada. Não se pode extrair da mancha o nome de quem leu, o número exato de visitas ou aquilo que essa pessoa sentia ao rezar.

O vestígio material1510BruxelasData aproximada atribuída ao manuscrito de Bruxelas cujas marcas se concentram em três fólios.
Da marca à interpretaçãoO estudo compara áreas manuseadas, mede o escurecimento e interpreta os resultados à luz da história material. O desenho é uma representação do método, não uma reprodução do manuscrito.ObservarMedirCompararO contexto orienta a interpretação
Bruxelas · Ms. 15078Oração aos 72 nomes da VirgemMétodo discutido em 2010
Como interpretar

Escurecimento e desgaste oferecem indícios de manuseio. Não identificam, sozinhos, quem leu, quantas vezes leu ou o que sentiu. O desenho apresenta o método, sem simular medições.

A tentação de enxergar uma biografia inteira num vestígio é grande. A graça da pesquisa está em resistir a ela sem desprezar o vestígio. Entre não saber nada e reconstituir a intimidade de um desconhecido existe um campo considerável de perguntas verificáveis. Algumas páginas foram mais tocadas do que outras. A distribuição das marcas merece ser explicada.

Há, ainda, gestos que uma história da leitura ocupada apenas com os olhos deixaria escapar. Livros litúrgicos podiam ser beijados. Em um missal associado à corporação dos tecelões de linho de Haarlem, estudado por Rudy, havia um lugar destinado ao beijo. O desgaste mostra que o contato podia ultrapassar esse alvo e alcançar outras partes da imagem. O livro participava de uma ação corporal e coletiva.

A pesquisadora ampliou esse trabalho em “Touching Parchment”, cujo primeiro volume saiu em 2023 e o segundo em 2024. A série investiga como usuários esfregaram, seguraram e beijaram manuscritos. No primeiro volume, entram em cena práticas públicas, entre elas rituais religiosos e juramentos. A leitura aparece junto de ações que envolviam o objeto inteiro, sua presença e a autoridade que lhe era atribuída.

Para quem cresceu ouvindo que livro bem tratado é livro sem marca, esses materiais criam um pequeno embaraço. A conservação é indispensável, mas um exemplar que chegou intacto e outro muito usado não respondem às mesmas perguntas. A deterioração de certas áreas pode ter custado beleza e, ao mesmo tempo, conservado informação sobre a vida do volume.

Essa investigação pede olhos treinados para o que costuma ficar fora do assunto principal. Uma margem escurecida não foi escrita para a posteridade. Não pretende defender o leitor nem melhorar sua reputação. Ficou ali porque uma mão precisava virar ou sustentar a folha. Quinhentos anos depois, alguém conseguiu fazer uma pergunta a esse gesto.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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