Mil paredes não são capazes de segurar um homem que quer curar o mundo, fazendo dele um lugar melhor, mas que precisa ser tocado, tomado, com força, sem parar, até que se revele a sua natureza, a natureza humana. Michael Jackson (1958-2009) é, sem dúvida, o nome que melhor encarna o conceito de fama, talvez uma modalidade de fama que se deu por encerrada às 14h26 daquela melancólica tarde de 25 de junho de 2009, quando foi declarado morto após receber propofol, um potente anestésico cirúrgico, e benzodiazepínicos, deixando a maioria dos sete bilhões de terráqueos em estado de choque. Nada disso entra em “Michael”, a cinebiografia do cantor e compositor de Gary, Indiana, Meio-Oeste dos Estados Unidos, que sobreviveu a reiterados episódios de abuso psicológico para tornar-se o Rei do Pop. Antoine Fuqua parece tentar uma guinada na vasta trajetória de longas de ação e confronto entre criminosos e a polícia iniciada com “Assassinos Substitutos” (1998), após ter ganhado renome como diretor de videoclipes. Não foi dessa vez.
A arte não basta
O Michael do roteiro de John Logan é uma projeção do que Michael queria ter sido: um homem comum, sem traumas, feliz, afinal. Fuqua expõe seu biografado numa casa simples junto com os quatro irmãos homens mais velhos, ensaiando como uma máquina, triste, precocemente maduro aos oito anos. Essa maturidade é o que o faz suportar os golpes e seguir adiante, convicto de seu dom, mas não basta para ajudá-lo a passar por cima da opressão do pai e da incúria da mãe, ressentimento que leva pelas duas décadas pelas quais a narrativa se estende. Acontecimentos como as primeiras apresentações ganham forma a uma velocidade compatível aos 127 minutos, e a interpretação tocante de Juliano Krue Valdi na pele do pequeno Michael quase resta perdida. Ainda menos sorte tem Jaafar Jackson, que se vira para dar alguma profundidade dramática ao rapaz de 24 anos que chega às paradas de sucesso com “Thriller” (1982), o álbum mais vendido da história do showbiz. Michael dá todos os sinais de um sofrimento psiquiátrico galopante, mas é visto apenas como um ricaço excêntrico que cultua Peter Pan e mantém um zoológico em casa. A opção por Jaafar, sobrinho de Michael, ratifica a sensação vexatória de uma biografia chapa-branca, deformação semântica que o valor afetivo e a saudade do eterno MJ não aplacam.

