No canto esquerdo de “A Vocação de São Mateus”, um homem olha para fora do quadro. Não parece especialmente ocupado com o acontecimento religioso que reúne os demais personagens. Está ali também para se apresentar. É Juan de Pareja, o autor da pintura, concluída em 1661. Onze anos antes, ele havia sido o modelo de um dos retratos mais célebres de Diego Velázquez, que naquele momento era seu proprietário.
É possível conhecer muito bem o rosto de Pareja e quase nada de seu trabalho. O retrato feito por Velázquez, hoje no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, tornou-se uma imagem tão admirada que frequentemente encerra a conversa. A qualidade da pintura do mestre oferece um assunto inesgotável. Para o homem representado, porém, aquela tela era apenas parte de uma vida que continuaria fora dela.
Pareja passou mais de duas décadas escravizado no ateliê de Velázquez, segundo a pesquisa apresentada pelo Met. Nasceu em Antequera, na Espanha, por volta de 1608. As informações sobre sua origem familiar são incompletas, e a documentação não autoriza preencher tudo o que o retrato nos convida a imaginar. Sabemos mais sobre os regimes de trabalho e as obras que sobreviveram do que sobre seus pensamentos diante do pintor.
Em 1650, os dois estavam em Roma. Velázquez pintou Pareja e mostrou o retrato no Panteão, onde a obra chamou atenção. A cabeça voltada para o observador, a gola clara, a firmeza da presença e a economia do fundo ajudaram a fazer da imagem uma demonstração extraordinária do que o retratista sabia fazer. O reconhecimento da pessoa na pintura coexistia com uma relação jurídica que lhe negava liberdade.
Esse contraste pede cuidado. A dignidade que um artista consegue representar não prova que ele a assegure na vida de quem representa. No caso de Pareja, a distância pode ser medida por documentos. Velázquez assinou em Roma, ainda em 1650, a alforria de seu assistente, mas o instrumento previa mais quatro anos de serviço. A liberdade se efetivaria em 1654. A data do papel e a da mudança de condição não são intercambiáveis.
A alforria não foi imediata
Quatro anos separam a assinatura da alforria da liberdade efetiva de Pareja.
Depois disso, Pareja desenvolveu uma carreira própria. Pintou retratos e grandes composições religiosas. “A Fuga para o Egito”, “O Batismo de Cristo” e “A Vocação de São Mateus” permitem examiná-lo pelo que produziu, sem precisar transformar cada tela numa nota de rodapé da obra de Velázquez. O tamanho de algumas dessas pinturas também desfaz a impressão de uma atividade ocasional, exercida discretamente à sombra do antigo ateliê.
Na “Vocação”, guardada pelo Prado, a história bíblica ocupa um ambiente amplo, cheio de figuras, tecidos, gestos e objetos. Pareja se coloca na margem, de pé, voltado para nós. O papel que segura identifica sua autoria. O lugar é lateral, mas o olhar estabelece uma ligação direta com quem vê a pintura. Enquanto os outros personagens participam da cena, ele também apresenta o trabalho.
Esse autorretrato ganha força quando comparado à imagem feita em Roma. O rosto que circulava como demonstração do talento de outro pintor passa a integrar uma obra que o próprio Pareja concebeu e assinou. Não é necessário supor uma declaração íntima que ele não deixou escrita. A mudança de posição está visível no objeto, na assinatura e na autoria.
Um dos responsáveis por recuperar essa dimensão foi Arturo Alfonso Schomburg, intelectual e colecionador porto-riquenho dedicado à história negra. Em 1926, ele viajou à Espanha em busca de vestígios que a narrativa artística dominante havia deixado de lado. O Met retomou essa pesquisa na exposição dedicada a Pareja em 2023, reunindo trabalhos e documentos que permitiam acompanhar o percurso do pintor para além do retrato famoso.
Olhar suas telas também impede uma forma aparentemente elogiosa de diminuí-lo. Pareja não precisa ser apresentado como um segundo Velázquez para merecer atenção. A pesquisa da exposição destaca sua aproximação com a pintura madrilenha de cores e composições mais expansivas. Quem chega a “A Vocação de São Mateus” procurando apenas o antigo assistente pode começar pelo homem à esquerda. Depois terá um quadro inteiro para examinar.

