Carolina Maria de Jesus escreveu em português os cadernos que deram origem a “Diário de Bitita”. Quando o livro saiu no Brasil, em 1986, seu texto vinha do francês. No caminho entre a letra da autora e o leitor brasileiro, uma edição estrangeira havia se tornado a fonte de uma tradução de volta. A distância percorrida aparece nas palavras e também no título.
Nos originais, a obra se chama “Um Brasil para os brasileiros”. São dois cadernos preservados pelo Instituto Moreira Salles, que os disponibiliza para consulta digital. O nome escolhido por Carolina anuncia uma preocupação com o país e com aqueles que podem se reconhecer como seus habitantes. Já “Diário de Bitita” conduz a atenção para a experiência pessoal da narradora. A mudança dá ao leitor uma primeira orientação antes que ele chegue à primeira página.
As memórias atravessam a infância e a juventude em Sacramento, Minas Gerais, os deslocamentos por outras cidades e a chegada a São Paulo. Carolina trabalhou nesses escritos depois do sucesso de “Quarto de despejo”, já no período em que vivia em Parelheiros. A autora conhecida pelo relato da favela tinha outras épocas de sua vida para elaborar e outros modos de pensar a sociedade brasileira.
Em 1975, ela entregou os manuscritos à pesquisadora Clélia Pisa, que a entrevistara com Maryvonne Lapouge para o projeto de “Brasileiras”. Carolina morreu em 1977. A publicação francesa veio em 1982, com o título “Journal de Bitita”; a brasileira, quatro anos depois. Segundo o histórico do IMS, esta última foi traduzida diretamente do francês. O texto em português que chegou ao público, portanto, já havia atravessado decisões de edição e de tradução em outra língua.
Português, francês, português
A edição brasileira de 1986 foi traduzida da edição francesa de 1982. O manuscrito em português permaneceu como outro testemunho do trabalho da autora.
Por que a volta não recupera o original
O IMS registra alterações de estrutura, omissões e acréscimos entre os manuscritos e o livro publicado. Uma tradução de volta ao português incorpora as intervenções da versão utilizada como fonte.
Traduzir um livro de volta ao idioma em que foi escrito pode soar como uma extravagância bibliográfica. Neste caso, é uma condição decisiva de leitura. Duas frases podem transmitir um episódio semelhante e produzir vozes muito diferentes. Escolhas de vocabulário, ordem das lembranças, repetições e modos de formular um juízo participam da escrita de uma autora. Quando se alteram, a experiência que o leitor recebe também muda.
Os problemas documentados vão além das variações inevitáveis entre idiomas. No texto de curadoria da exposição dedicada a Carolina, Hélio Menezes e Raquel Barreto apontam mudanças profundas na estrutura, omissões e inclusão de trechos em relação aos originais. Registram ainda que a edição francesa apresentou o nome da escritora como “Maria Carolina de Jesus”. Até a ordem de seu nome havia passado por uma intervenção.
Os curadores descrevem esse processo como uma modificação feita sem o consentimento da autora. A observação exige cuidado com o que se entende por ter acesso à voz de Carolina. Um livro publicado em seu nome pode guardar a força de sua escrita e, ao mesmo tempo, carregar intervenções que precisam ser identificadas. Reconhecer essa história editorial permite formular perguntas mais precisas sobre o texto que se tem nas mãos.
O título original ajuda a perceber o alcance do projeto. Menezes e Barreto destacam uma escritora que interpreta a formação do Brasil e pensa educação, moradia, liberdade e igualdade racial. A memória da menina funciona também como lugar de observação do país. Reduzir o livro à curiosidade sobre a infância de uma autora famosa empobrece essa ambição, justamente quando os cadernos oferecem a chance de acompanhá-la.
O arquivo acrescenta uma vantagem muito concreta a essa discussão. Na página de manuscritos do IMS, os dois cadernos de “Um Brasil para os brasileiros” podem ser abertos separadamente. Sua consulta não dispensa o trabalho de pesquisadores que comparam versões, identificam cortes e estudam a composição. Torna possível, porém, reconhecer o original como um objeto consultável, com uma escrita própria, anterior ao acabamento que recebeu nas edições.
Há leitores que chegaram a Carolina por “Diário de Bitita”, e esse encontro faz parte da história do livro. Conhecer o percurso da publicação dá a ele outra espessura. O volume de 1986 continua sendo um documento de circulação da obra; os cadernos preservam o trabalho da escritora antes daquela viagem. Para voltar à letra de Carolina, hoje é possível abrir o arquivo sem passar pelo francês.

