Discover
Bula AchadosUm pintor feito de literatura

A fotografia parecia resolver o problema. Lá estava Picasso, sentado, com outro homem ao lado. Quem quisesse comprovar que Jusep Torres Campalans tinha circulado entre os grandes nomes da arte moderna encontraria uma evidência bastante conveniente. O inconveniente era que Campalans nunca existira. O escritor Max Aub lhe dera uma vida, uma obra e, com ajuda de uma tesoura muito bem empregada, um lugar na fotografia.

Publicado em 1958, “Jusep Torres Campalans” tem o nome de seu biografado na capa e a ambição de oferecer ao leitor um artista inteiro. Aub não se contentou em inventar um pintor dentro de um romance. Produziu também pinturas atribuídas a ele. O leitor podia duvidar da história, fechar o livro, voltar à imagem de um quadro e encontrar a ficção ainda trabalhando fora da frase.

Na vida imaginada, Campalans era um catalão de origem camponesa que se mudara para Paris, convivera com as vanguardas e depois se recolhera ao México. O livro assumia a forma de uma monografia artística, com biografia, reflexões de um “caderno verde”, conversas e catálogo de obras. Até o crítico responsável por comentar os trabalhos, H. R. Tows, pertencia à invenção. Aub havia providenciado alguém para levar o pintor a sério.

A fotografia acrescentava outra espécie de autoridade. Segundo a reconstituição do historiador Eduard Vallès, publicada pelo Museu Nacional d’Art de Catalunya, a imagem original fora feita por Joan Vidal Ventosa em Barcelona, em maio de 1906. Mostrava Picasso, Fernande Olivier e o escritor Ramon Reventós no espaço conhecido como El Guayaba. Era um registro verdadeiro, com pessoas identificáveis e uma história própria.

Josep Renau realizou a montagem que substituiu Reventós por Campalans. A operação aproveitava o prestígio documental da foto e o prestígio pessoal de Picasso. Ter um conhecido célebre ajuda muito uma biografia, sobretudo quando o biografado precisa primeiro superar o pequeno obstáculo de nunca ter nascido. A imagem adulterada entrou no livro de Aub. Sua origem pode ser confrontada com a fotografia preservada pelo museu catalão.

O documento e a montagem

Uma fotografia, duas identidades

O retrato de Picasso no El Guayaba forneceu a matéria-prima. A montagem de Josep Renau trocou a pessoa ao lado do artista.

PicassoReventósFotomontagemPicassoCampalans
Registro originalJoan Vidal Ventosa, maio de 1906
Pessoa substituídaO escritor Ramon Reventós
Personagem inseridoJusep Torres Campalans
O que o desenho representa

O diagrama mostra a substituição de identidade descrita pelo Museu Nacional d’Art de Catalunya. É uma representação explicativa, não uma reprodução da fotografia ou da fotomontagem.

A brincadeira tinha cúmplices. O Reina Sofía registra a participação de Jean Cassou, que escreveu um texto utilizado numa exposição do artista fictício, e de Camilo José Cela, que mandava recados para Campalans na correspondência com Aub. Esse círculo de colaboradores estendia a narrativa para outros papéis. Uma carta, um catálogo e uma pintura podiam concordar entre si, embora a pessoa que supostamente os ligava continuasse ausente.

É uma boa maneira de tornar visível o trabalho da credibilidade. Uma informação parece mais sólida quando surge acompanhada por documentos de formatos diferentes. O leitor reconhece os modos de apresentação de uma pesquisa e tende a conceder algum crédito a eles. Aub põe esses modos para funcionar a serviço de uma ficção, com o capricho de quem sabe que uma mentira literária pode exigir bastante trabalho manual.

Em 2003, o Museu Reina Sofía reuniu pinturas, desenhos e documentos na exposição “Jusep Torres Campalans. Ingenio de la vanguardia española”. A instituição apresentava abertamente a invenção de Aub. O autor imaginário chegava ao museu com a identidade esclarecida, e sua obra podia ser vista como parte desse experimento entre literatura e artes visuais.

No catálogo digital da coleção, o nome aparece como “Jusep Torres Campalans (Aub, Max)”. Ali estão trabalhos como “Trama persa”, “La fille de la carbonera” e “Dalia para Odilon Redon”. O parêntese resolve a autoria para quem consulta o acervo, mas preserva o personagem na entrada principal. Há algo de muito adequado nesse arranjo. Depois de fabricar tantos documentos para seu pintor, Aub conseguiu lhe arranjar até uma ficha de museu.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

Leia Também