Doze episódios bastaram para Phoebe Waller-Bridge criar uma intimidade difícil de esquecer. Disponível no Prime Video, “Fleabag” faz do espectador o confidente de uma mulher que tem uma piada para quase tudo — sobretudo para aquilo de que ainda não consegue falar.
Fleabag (2016)
Em Londres, uma mulher tenta manter um café, administrar as relações familiares e atravessar o luto enquanto se envolve em encontros e decisões que complicam sua rotina. A irmã, Claire, parece ter organizado a vida segundo regras muito diferentes das suas. O pai e a madrinha completam um círculo em que a educação costuma esconder ressentimentos. Na segunda temporada, a aproximação com um padre acrescenta outro tipo de impasse.
A protagonista olha para a câmera e comenta o que acabou de acontecer. Esse gesto cria rapidamente uma cumplicidade: quem assiste recebe a observação que os demais personagens não ouviram. Também passa a depender da versão oferecida por ela. A desenvoltura de quem conta uma boa história pode esconder o esforço necessário para manter certos assuntos à distância.
Waller-Bridge escreve e interpreta essa mulher com atenção ao tempo da piada e àquilo que sobra depois dela. Uma expressão atravessa uma conversa inteira; um comentário espirituoso pode tornar uma situação ainda mais embaraçosa. O humor sexual e a franqueza da protagonista convivem com a dificuldade de admitir o que deseja das pessoas. Há uma diferença dolorosa entre conseguir uma reação e conseguir companhia.
O elenco torna essa dificuldade concreta. Sian Clifford dá a Claire uma rigidez que muda de sentido conforme a relação entre as irmãs avança. Olivia Colman encontra ameaça na cordialidade da madrinha. Andrew Scott, presente na segunda temporada, constrói uma conversa em que atração, escuta e impedimento se aproximam. Cada relação exige da protagonista algo que suas observações para a câmera nem sempre conseguem resolver.
Em 2019, a Television Academy concedeu seis Emmys à produção, entre eles melhor série de comédia, atriz principal e roteiro de comédia para Waller-Bridge. Os prêmios ajudam a dimensionar o reconhecimento, mas a concisão é um argumento igualmente forte para começar: são duas temporadas de seis episódios, com capítulos de aproximadamente meia hora.
A indicação vale para quem aprecia histórias capazes de mudar a temperatura de uma cena sem preparar um discurso. O riso abre uma passagem para a intimidade, e a série sabe aproveitar essa proximidade. Quando a protagonista hesita, o silêncio importa porque, a essa altura, já aprendemos a esperar dela uma resposta.

