O papel tinha a data e o nome da canção. Tinha também uma sucessão de linhas onduladas, traçadas sobre uma camada de fuligem. Em 9 de abril de 1860, Édouard-Léon Scott de Martinville havia registrado ali um trecho de “Au clair de la lune”. Faltava uma coisa que hoje parece inseparável de qualquer gravação. Seu aparelho não tocava de volta o que acabara de gravar.
Scott trabalhava com edição e tipografia numa casa de publicações científicas em Paris. Segundo a documentação reunida pelo Thomas Edison National Historical Park, a leitura de um texto sobre fisiologia, em 1853 ou 1854, ajudou a despertar seu interesse por uma máquina que imitasse o ouvido. Se era possível fixar uma imagem, por que não preservar os movimentos produzidos pela voz? O problema, para ele, passava pela escrita. Esperava que aqueles sinais pudessem um dia ser decifrados como uma espécie de taquigrafia natural.
O fonoautógrafo conduzia o som até uma membrana ligada a uma ponta que riscava a superfície escurecida. A vibração ficava desenhada no suporte. Ao longo dos experimentos, o inventor passou de uma placa de vidro para um cilindro em rotação, que permitia registros mais longos. A máquina fornecia matéria para estudar a voz, comparar oscilações e examinar fenômenos acústicos. A reprodução sonora ainda estava fora do projeto.
Isso ajuda a entender o intervalo de 148 anos. A pessoa que cantou foi ouvida naquele momento por quem estivesse por perto, naturalmente. O que permaneceu inaudível foi o registro. O papel atravessou gerações sem que alguém pudesse colocá-lo num aparelho e escutar a canção. A informação estava preservada numa forma que se podia enxergar, mas ainda não devolver ao ouvido.
Em 2008, o grupo First Sounds recuperou o áudio com a colaboração do Lawrence Berkeley National Laboratory. Imagens digitalizadas do documento foram processadas para extrair som das marcas. Carl Haber e Earl Cornell estavam entre os responsáveis pela tecnologia de recuperação óptica empregada no trabalho. Era possível seguir os traços sem fazer uma agulha percorrer e desgastar o original. O laboratório descreve essa linha de pesquisa como uma aplicação de métodos de análise de imagem ao resgate de gravações frágeis.
A primeira audição pública trouxe, junto com a descoberta, um engano bastante compreensível. O trecho parecia cantado por uma mulher ou por alguém muito jovem. A reprodução estava acelerada. Em 2009, os pesquisadores revisaram a interpretação das anotações de Scott e concluíram que haviam tomado como referência uma frequência duas vezes maior que a correta. O som foi então desacelerado. Mudaram o andamento da canção e a impressão de quem estava cantando.
O detalhe técnico tinha ficado ao lado da própria voz. Scott usava um diapasão para produzir um segundo traço, de frequência conhecida, que ajudava a medir o tempo. O cilindro era movido manualmente e podia variar de velocidade. Sem uma referência, uma mudança no desenho poderia ser confundida com uma mudança na voz. A leitura corrigida desse sinal de calibração foi decisiva para escutar o registro de outra maneira.
Recuperação dos áudios por FirstSounds.org · licença Creative Commons Atribuição. O arquivo recebeu revisões posteriores.
Por que as versões soam diferentes
A primeira reprodução tomou a referência como 500 Hz. A equipe passou a interpretá-la como 250 Hz e corrigiu a velocidade. A comparação permite perceber a mudança; os ruídos e as limitações do registro permanecem.
Há fortes indícios de que o cantor seja o próprio Scott, embora o First Sounds preserve a ressalva sobre a identificação. Um dos elementos de comparação foi uma gravação de versos de “Aminta”, de Torquato Tasso. Nela, uma anotação em que Scott admite ter invertido palavras permite associá-lo à voz. O inventor deixou no arquivo até o registro do seu erro de leitura.
A recuperação continuou depois da primeira divulgação. O catálogo do First Sounds oferece versões posteriores e explica as revisões realizadas. A canção de 9 de abril é apresentada como o registro recuperado mais antigo em que a voz humana é claramente reconhecível. A precisão dessa descrição importa. Existem traços sonoros anteriores, inclusive experimentos do próprio Scott, mas conservar uma marca e conseguir reconhecer o que ela contém são problemas diferentes.
Também seria injusto transformar a história numa denúncia simples contra Edison. Quando desenvolveu o fonógrafo, em 1877, ele trabalhou com a possibilidade de registrar e reproduzir o som. Scott havia fixado as vibrações antes, perseguindo outra finalidade. Os dezessete anos que separam a canção francesa do fonógrafo contam uma história de invenções com ambições distintas, embora acabassem reunidas no mesmo campo.
Hoje, o arquivo cabe num clique. A voz vem cercada pelo ruído e pelas limitações da experiência que a produziu. É pouco material para imaginar uma pessoa, e convém resistir à vontade de completar o que não sabemos. Temos uma canção, um papel datado e alguém testando um aparelho. Naquele dia de abril, isso já era trabalho suficiente.

