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Bula AchadosA fabricação de uma página

Uma letra preta pode ser feita sem tinta. No “Livre de prières” produzido em Lyon no século 19, bastava que os fios de seda se cruzassem da maneira certa. O mesmo valia para uma flor, um rosto, as pequenas figuras religiosas que ocupavam as páginas. Quem olhasse depressa encontraria um livro de orações ornamentado à maneira dos manuscritos medievais. Para descobrir o trabalho que havia ali, precisava chegar mais perto.

O volume saiu da associação entre o padre Jean Hervier, responsável pelos desenhos, o fabricante Joseph-Alphonse Henry e o editor Antoine Roux. A data de 1886 aparece na identificação da edição; o colofão, a nota de fabricação ao final do livro, registra a conclusão em 8 de setembro de 1887. Esses dados constam do catálogo da Morgan Library, em Nova York, que conserva um exemplar. É uma boa precaução começar por eles. Um livro feito de tecido parece pedir uma lenda, mas dispõe de endereço, fabricantes e data.

A oficina de Henry empregou o sistema Jacquard, que comandava a seleção dos fios por meio de cartões perfurados. Os furos determinavam quais fios seriam levantados durante a passagem dos outros. Uma longa sequência dessas operações produzia os desenhos. O trabalho de preparar uma página começava, portanto, muito antes de alguém poder abri-la. Era preciso converter cada detalhe numa sequência que o tear conseguisse executar.

O resultado usava seda preta e cinza-prateada. O contraste permitia construir o texto e os ornamentos com uma definição que ainda surpreende nas reproduções do volume. No exemplar do Walters Art Museum, em Baltimore, as folhas de seda foram montadas sobre papel e reunidas numa encadernação. O museu registra couro azul-escuro, metais e fechos entre os materiais dessa apresentação. A seda era a superfície de leitura, não uma capa vistosa acrescentada a um livro convencional.

A página por dentroLetras feitas de fiosO sistema Jacquard seleciona fios por meio de cartões perfurados. A repetição das operações forma o desenho.
Cruzamento de fios · representação simplificada
Lyon · 1886–1887Seda preta e cinza-prateadaColofão · 8 de setembro de 1887
Como a letra aparece no tecido

O contraste nasce dos fios que ficam visíveis na superfície. Os cartões orientam a seleção dos fios levantados. O desenho acima mostra apenas o princípio do entrelaçamento, não o padrão técnico nem a estrutura exata das páginas do livro.

Há alguma graça na escolha do modelo. Uma tecnologia industrial relativamente recente trabalhava para recuperar a aparência de objetos feitos à mão séculos antes. As bordas decoradas recorriam a iluminuras dos séculos 14 a 16. Em vez de exibir sua modernidade, a máquina se aplicava a parecer antiga. As pequenas imagens, os desenhos vegetais e a disposição do texto pertenciam a um repertório familiar aos colecionadores de manuscritos. O modo de produzi-los é que estava fora do lugar.

Essa estranheza costuma render ao volume o apelido de primeiro livro feito por computador. A frase resolve uma manchete e cria alguns problemas. Um tear Jacquard executava instruções codificadas, princípio importante para a história da computação, mas chamar o equipamento simplesmente de computador elimina diferenças que merecem ser entendidas. Há ainda um inconveniente bibliográfico. A própria Morgan aponta um trabalho anterior da oficina, de 1883, com versos de Lamartine reproduzidos em caracteres tecidos. O livro de orações não precisa ganhar uma corrida que talvez nem tenha disputado.

Também convém tratar com cuidado o tamanho da edição. O catálogo da Morgan informa uma produção de cinquenta a sessenta exemplares ao longo de dois anos. No estudo “The Woven Prayer Book. Cocoon to Codex”, publicado em 2019, Matthew J. Westerby observa que não existe um levantamento completo dos exemplares sobreviventes. A estimativa ajuda a medir a raridade; não permite contar quantos restam hoje.

Westerby examinou cinco volumes e encontrou diferenças entre eles. Um havia sido personalizado para um casal parisiense, com os brasões e a data do casamento tecidos numa página. O detalhe corrige outra impressão apressada, a de que uma máquina teria necessariamente produzido objetos idênticos. Havia espaço para encomendas particulares, encadernações diferentes e sinais de propriedade. A sequência mecânica não encerrava o trabalho do livro.

Em 2019, o Walters organizou a exposição “Woven Words”, dedicada ao exemplar de seu acervo. Ao lado dele, apresentou livros manuscritos com conhecimentos técnicos sobre o tear. Havia também uma versão digital para consulta. O percurso permitia acompanhar as operações escondidas naquele objeto pequeno, que poderia ser confundido com mais uma peça luxuosa numa vitrine.

Vale demorar nas letras. A leitura habitual atravessa a matéria da página sem prestar muita atenção a ela. Aqui, uma palavra continua sendo uma palavra, mas cada curva depende de fios que também sustentam o desenho ao redor. Antes de chegar à oração seguinte, dá vontade de voltar e conferir como fizeram aquela inicial.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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