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Bula AchadosUm livro fora da estante

O catálogo do Museu de Arte Moderna de Nova York descreve um livro com ingredientes que não costumam interessar a um bibliotecário. Há gelatina, gordura, temperos e tripa natural. O papel entra triturado. A obra é uma “Literaturwurst”, ou salsicha de literatura, feita por Dieter Roth em 1969. Quem procurar suas páginas no objeto não terá muita sorte. Elas foram empregadas no recheio.

Roth produziu cerca de cinquenta dessas salsichas entre 1961 e 1970, segundo a apresentação da série pelo MoMA. O procedimento acompanhava uma receita de embutido, com uma substituição decisiva. No lugar da carne moída, entrava um livro ou uma revista reduzido a pedaços. A publicação se misturava aos demais materiais e ganhava uma forma que já não permitia folheá-la. Convém manter a classificação. Trata-se de uma obra de arte, não de comida.

O exemplar de 1969 pertencente ao museu tem uma origem identificável. O livro utilizado foi a edição alemã de “To Seek a Newer World”, de Robert F. Kennedy, publicada com o título “Suche nach einer Neuen Welt”. Saber isso evita reduzir o trabalho a uma piada genérica sobre livros ruins. Há uma publicação determinada dentro daquele objeto, e a informação sobre ela sobrevive fora da massa, no registro da obra.

O material muda de funçãoLivro → objetoA publicação deixa de ser folheável e passa a integrar uma obra catalogada como livro de artista.
Artista · Dieter RothExemplar do MoMA · 1969Série · Aproximadamente 50 obras, 1961–1970
Entenda este registro

O diagrama mostra a transformação material, não oferece uma receita. O exemplar do MoMA emprega a edição alemã de um livro de Robert F. Kennedy.

A diferença entre olhar a salsicha e consultar sua ficha é parte do desconforto. O aspecto externo não devolve o argumento de Kennedy, a sequência dos capítulos ou uma frase intacta à disposição do visitante. O catálogo faz um trabalho que o objeto já não faz. Conserva o nome do livro e permite relacionar o resultado ao material de partida. É uma maneira bastante pouco discreta de tornar necessária uma legenda.

Na seleção de publicações usadas por Roth, segundo o MoMA, entravam autores e periódicos que ele invejava ou desprezava. A série passou por tabloides, romances alemães contemporâneos e obras de Marx e Hegel. Os dois sentimentos não são equivalentes, e é prudente não escolher um deles como explicação universal. Muito menos atribuir, sem documento específico, um veredicto pessoal do artista a cada escritor que acabou numa tripa.

A trajetória ajuda a situar o gesto. Nascido em Hannover em 1930, Roth fez aprendizado de artes gráficas em Berna a partir de 1947 e trabalhou com publicações e experiências de livro antes das salsichas. A cronologia de seu museu registra em 1961, em Reykjavík, a trituração de romances misturados a gordura e especiarias. Ele não chegou ao papel apenas para destruí-lo. Já conhecia o trabalho de organizar uma página e transformar materiais em publicação.

Essa familiaridade torna a operação mais precisa. Num livro comum, o papel sustenta uma ordem que permite ao leitor avançar, voltar, comparar trechos. Ao picá-lo, Roth conserva a matéria e desfaz esse acesso. Não há uma nova encadernação que resolva o problema. Podemos continuar chamando o resultado de livro de artista, como faz a ficha do museu, mas precisamos admitir que a palavra “livro” passou a abrigar um objeto que não se deixa ler da maneira habitual.

Há também algo de excessivamente doméstico nos meios escolhidos. Gordura, gelatina e temperos dispensam a solenidade de uma escultura em bronze. O preparo aproxima uma publicação do trabalho da cozinha e, ao mesmo tempo, impede que o produto cumpra satisfatoriamente qualquer das duas funções práticas. Não se consegue ler o volume original; não se deve servir o objeto à mesa. O trabalho permanece entre usos que ele próprio interrompeu.

A exposição que o MoMA dedicou aos livros de Roth em 2013 colocou a série num conjunto mais amplo de experiências com formatos, recipientes e materiais. Isso não significa que a salsicha esteja permanentemente exposta. Pertencer a um acervo e ocupar uma vitrine aberta ao público são situações diferentes. A primeira está documentada; a segunda depende da programação e da montagem do museu.

O que o acervo guarda, portanto, não é uma ilustração de um livro transformado em salsicha. É o objeto produzido com esse livro. A distinção parece pequena até que se tente imaginar o caminho de volta. O título de Kennedy pode ser recuperado no catálogo, e seu texto pode ser lido em outro exemplar. Daquela tripa, porém, não sai uma página para virar.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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