Uma biblioteca com 14.278 placas de pedra apresenta alguns inconvenientes para quem gosta de levar a leitura para a cama. No templo Yunju, no distrito de Fangshan, em Pequim, o peso dos livros fazia parte da solução. A ideia era conservar escrituras budistas num suporte que resistisse melhor à destruição. O trabalho começou no início do século 7 e continuou, em sucessivas etapas, por mais de mil anos.
O monge Jingwan está no início dessa história. Segundo a documentação da exposição organizada em 2024 pela Universidade Batista de Hong Kong, ele conhecia os efeitos das perseguições ao budismo nas dinastias Wei do Norte e Zhou do Norte. Textos em papel e madeira haviam sido destruídos, enquanto inscrições em pedra tinham sobrevivido. Sua resposta foi começar a gravar os ensinamentos. Preservar a leitura exigiria muito mais esforço do que copiar um manuscrito.
Os responsáveis não podiam contar com uma encadernação que resolvesse o problema do armazenamento. As placas foram guardadas em cavernas da montanha e em espaços subterrâneos do templo. O governo de Pequim registra um conjunto de nove cavernas e um depósito subterrâneo. Ao fim do processo, as inscrições correspondiam a 1.122 conjuntos de textos, divididos em 3.572 volumes, distribuídos pelas 14.278 pedras. Esses números se referem a unidades diferentes. Uma placa não equivale necessariamente a um livro.
Pedra, volume e texto são a mesma coisa?
Não. Os números descrevem unidades diferentes de organização e suporte. As 14.278 placas contêm inscrições correspondentes a 3.572 volumes de 1.122 conjuntos de textos. Por isso, a quantidade de pedras não deve ser apresentada como uma contagem de livros independentes.
A escala temporal é a parte mais difícil de acomodar na imaginação. Um projeto começado por uma pessoa precisou continuar a fazer sentido para gente que jamais a conheceu, sob governos que ainda não existiam quando as primeiras letras foram talhadas. A documentação chinesa relaciona o trabalho a seis dinastias, Sui, Tang, Liao, Jin, Yuan e Ming. Não se deve imaginar uma oficina funcionando sem interrupção por todo esse período. Houve etapas, ampliações, patrocínios e retomadas.
O crescimento da coleção obrigava a encontrar mais espaço. A história apresentada pelos organizadores da exposição de Hong Kong registra que, na dinastia Liao, a área de armazenamento das inscrições anteriores já estava cheia. Foi preciso abrir outro depósito. O problema é reconhecível para qualquer pessoa que acumulou livros além da capacidade das estantes, embora a solução adotada em Fangshan dificilmente coubesse num apartamento.
O que se gravava também importava. As inscrições de diferentes períodos se baseavam em tradições textuais e edições que não chegaram integralmente até nós. Entre elas está o cânone budista dos Khitan, ligado à dinastia Liao. Pesquisas sobre as escrituras de Fangshan utilizam as placas para estudar essa coleção desaparecida e suas relações com outros cânones. A dureza do suporte acabou preservando informações sobre textos que circulavam em materiais mais vulneráveis.
Isso dá ao acervo uma utilidade que vai além da admiração pelo tamanho da empreitada. Uma versão antiga permite cotejar passagens, examinar diferenças e acompanhar a transmissão de uma obra. Quem estuda um texto precisa saber o que foi copiado, de onde veio a cópia e em que momento ela foi produzida. Uma inscrição bem conservada pode ajudar nessas perguntas. A pedra dura muito, mas é o conteúdo das linhas que faz dela um documento.
No século 20, a recuperação de depósitos subterrâneos trouxe de volta à pesquisa milhares de placas. O portal de turismo de Pequim registra a descoberta, em 1956, de uma câmara próxima à pagoda sul, com 10.082 peças. Uma parte enorme da biblioteca estava guardada sob o chão. O depósito acrescentou ao trabalho dos estudiosos um conjunto que precisaria ser identificado, organizado e comparado com outras versões das mesmas escrituras.
Yunju preserva também escrituras em papel e matrizes de madeira. Os três materiais são apresentados como conjuntos distintos do acervo. Isso evita outra confusão tentadora, a de supor que os religiosos simplesmente abandonaram os suportes leves depois de descobrir as vantagens da pedra. Ler, imprimir, transportar e conservar são necessidades diferentes. O que é excelente para atravessar séculos pode ser bastante trabalhoso para circular de mão em mão.
A conservação continua. Um comunicado do complexo de Yunju, datado de 13 de outubro de 2026 e reproduzido no portal do governo de Pequim no dia 15, anunciou a reabertura da câmara subterrânea das escrituras a partir de 14 de outubro. O espaço passou por manutenção e melhorias nas condições de visitação, com atenção à proteção das peças. A notícia recoloca no presente uma biblioteca que costuma aparecer apenas acompanhada de datas remotas.
Entre as orientações aos visitantes está a proibição de fotografar com flash. A biblioteca de pedra volta a receber leitores, agora com regras para a luz das câmeras.

