Um dos crocodilos mumificados de Tebtunis chegou aos estudiosos com poemas gregos entre o material reaproveitado para envolvê-lo. O animal não havia sido enterrado com uma seleção de leitura para a eternidade. Os papiros eram papel usado, no sentido prático da expressão, embora fabricados de outra planta e destinados agora a outro serviço. O que perdera utilidade como texto continuava útil como material. Foi nessa segunda condição que parte da literatura conseguiu atravessar os séculos.
Tebtunis ficava na região egípcia do Faium. As escavações de 1899 e 1900, conduzidas por Bernard Grenfell e Arthur Hunt com financiamento de Phoebe Hearst, encontraram papiros em contextos diferentes. Havia material proveniente da cidade e de múmias humanas, além dos crocodilos. A distinção importa porque uma coleção recebe o nome de um lugar, mas isso não transforma todos os seus documentos em vizinhos dentro de um mesmo embrulho.
A antologia que interessa aqui aparece nos estudos como P.Tebt. I.1 e está associada ao crocodilo 28. Em uma apresentação da Universidade da Califórnia em Berkeley sobre a cultura grega no Egito helenístico, o conteúdo é descrito por suas mudanças de assunto. Helena lamenta o abandono de Menelau depois da guerra de Troia. Em outro trecho, aparece uma paisagem campestre ao amanhecer. Há ainda versos de amor. O crocodilo reuniu, sem escolher, assuntos que um leitor poderia escolher.
O caso pede uma pequena renúncia à imaginação. Seria agradável saber quem copiou os poemas, quais versos preferia e por que guardou a seleção. A documentação não entrega essa intimidade. Uma relação com Menches, escriba conhecido pelos documentos da região, foi proposta, mas não deve ser tratada como identificação segura do dono. A margem de dúvida pertence à história, tanto quanto o nome do animal no inventário.
O código do papiro também tem uma função que passa despercebida fora dos arquivos. P.Tebt. I.1 não é intercambiável com qualquer texto grego encontrado em Tebtunis. As letras e os números permitem acompanhar um objeto específico através de estudos, edições e catálogos. Sem esse cuidado, a curiosidade se torna uma cesta onde cabem poemas, recibos e documentos de procedências diferentes. Tudo acaba parecendo ter saído da mesma múmia.
Entenda este registro
O desenho representa relações documentais, não a disposição original dos papiros na múmia. A atribuição da antologia a um proprietário específico permanece incerta.
Os crocodilos eram associados ao culto de Sobek. O aproveitamento de papiros em sua preparação funerária reuniu práticas que hoje tendemos a separar em departamentos. Um material escrito podia passar de uma atividade administrativa ou literária para o trabalho de quem preparava o corpo. Não era necessário apreciar um poema para empregar a folha em que ele estava copiado. A conservação do texto podia ser um efeito involuntário de um uso que já não tinha nada a ver com leitura.
Os relatos da escavação exigem outra cautela. Estudos de Berkeley sobre os papiros e a arqueologia lembram as limitações dos métodos empregados naquela campanha. A recuperação de documentos não veio acompanhada do tipo de registro contextual que hoje se esperaria de uma escavação. Temos textos que podem ser estudados e, ao mesmo tempo, perguntas sobre sua situação original que se tornaram mais difíceis de responder. Celebrar o achado não obriga a declarar perfeita a maneira como foi retirado.
O trabalho também está longe de se encerrar na publicação de uma fotografia curiosa. Um projeto das universidades de Colônia e Münster, previsto para 2026 a 2041, dedica-se aos papiros gregos provenientes de múmias de Tebtunis. Seu universo inclui milhares de textos fragmentários, com correspondência, petições, contratos, recibos e registros. A reunião digital e a busca de encaixes entre fragmentos fazem parte da pesquisa. Não se trata de anunciar que uma máquina já leu tudo.
A pequena antologia tem um lugar particular nesse conjunto. Documentos administrativos permitem seguir obrigações e transações; aqueles versos deixam reconhecer outros interesses de quem escrevia e lia em grego no Egito. Ainda assim, o leitor antigo permanece menos nítido que Helena ou a manhã descrita no papiro. Podemos identificar alguns assuntos que alguém reuniu. A pessoa que fez a seleção continua faltando.
O crocodilo 28 não resolve essa ausência. Seu número serve para localizar a história, não para lhe dar uma intenção. Entre as coisas colocadas ao redor do animal havia uma folha que já não precisava ser lida. Foi preciso desfazer esse uso para que os versos voltassem a ter leitores.

