No alto de uma plataforma, um homem lia. Abaixo dele, trabalhadores faziam charutos. A fotografia dos irmãos Burgert, de 27 de agosto de 1929, registra o arranjo na fábrica Corral Wodiska, em Ybor City, Tampa. O leitor estava no expediente tanto quanto os colegas ocupados com o tabaco. Seu trabalho consistia em emprestar a voz a livros e jornais durante uma jornada que, sem ele, seria consideravelmente mais silenciosa.
Quem pagava eram os ouvintes. Uma fotografia atribuída a Lewis Hine, feita em Tampa em janeiro de 1909 e conservada pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, traz na descrição do acervo esse dado pouco intuitivo. Os operários remuneravam o leitor e escolhiam o que ele leria. Haviam decidido gastar parte do salário para que o tempo de trabalho comportasse outras coisas além do trabalho.
O ofício era conhecido pelo nome espanhol de lector. Sua história se desenvolveu nas fábricas cubanas do século 19 e acompanhou a circulação de trabalhadores e negócios do tabaco. No livro “El Lector: A History of the Cigar Factory Reader”, publicado em inglês pela University of Texas Press em 2010, a pesquisadora Araceli Tinajero acompanha a prática em Cuba, na Flórida, em Porto Rico e no México, recorrendo a jornais, documentos e entrevistas com profissionais da leitura.
A situação tinha exigências próprias. Ler para uma sala cheia pressupõe projeção de voz, alguma resistência e a capacidade de manter o interesse de quem continua usando as mãos. O livro não estava disponível individualmente para cada ouvinte interromper, voltar uma página ou acelerar o capítulo. Havia uma voz comum e um tempo comum de escuta. O modo de apresentar uma personagem fazia parte do serviço.
É o que ajuda a perceber a lembrança de Mary Fontanills sobre seu pai, Manuel Aparicio, registrada numa entrevista de história oral em 1983 e preservada pela Universidade do Sul da Flórida. Aparicio chegou a Tampa aos quinze anos e tornou-se leitor. Os trabalhadores apreciavam sua habilidade de dar uma voz diferente a cada personagem. Ele também atuava em grupos teatrais como ator, diretor e autor. O talento cênico encontrara um palco em que a plateia não precisava parar de produzir.
O que os documentos mostram?
Fotografias e descrições de acervos registram o lector e seu pagamento pelos trabalhadores. Os catálogos de jornais operários mencionam a escolha de leituras por votação. Depoimentos conservados pela Universidade do Sul da Flórida acrescentam nomes e trajetórias ao ofício.
Essa organização não dependia de um empresário generoso que resolvesse oferecer cultura aos funcionários. A documentação dos jornais operários conservados pela Biblioteca do Congresso descreve escolhas feitas por votação e remuneração assumida pelos próprios trabalhadores. O programa podia reunir ficção, poesia, notícias locais e informações políticas. Quem ouvia também tinha algo a dizer sobre o que seria lido.
A variedade é importante. Vista de longe, a cena de uma fábrica acompanhando romances pode ganhar uma doçura que deixa de fora os conflitos do lugar. Os jornais tratavam de condições de trabalho, organização sindical e acontecimentos dos países de origem dos imigrantes. A leitura conectava a bancada a discussões que os proprietários não controlavam inteiramente. Um trabalhador ocupado em enrolar tabaco podia, ao mesmo tempo, acompanhar uma ideia sobre a maneira como seu trabalho era remunerado.
O projeto Florida Memory, do arquivo e da biblioteca estaduais da Flórida, situa aí parte das disputas em torno dos lectores. Nas fábricas modeladas pela experiência cubana, a cultura sindical era forte. As leituras podiam favorecer a independência de Cuba, a organização dos trabalhadores e posições de esquerda. Em 1931, depois de anos de conflito, as principais empresas de Tampa proibiram os leitores. A história do ofício inclui essa decisão patronal, bem menos pitoresca que a imagem do sujeito com um romance na mão.
A saída da fábrica não significou necessariamente o fim da carreira de quem vivia da linguagem. Segundo o registro da entrevista de sua filha, Aparicio passou pelo rádio e por um jornal, e mais tarde trabalhou em Nova York como tradutor nas Nações Unidas. É uma trajetória que impede tratar o lector como uma figura curiosa sem vida fora da plataforma. Ali havia repertório, técnica e uma profissão.
Outro depoimento preservado pela mesma universidade é o de Wilfredo Rodriguez, que também exerceu o ofício. Seu pai, Francisco Rodriguez, conhecido como “El Mexicano”, havia sido leitor em fábricas de Cuba e de Tampa. A transmissão da experiência entre lugares e gerações aparece assim em nomes próprios, lembranças de trabalho e registros que podem ser consultados. O homem elevado acima das mesas, nas fotografias antigas, deixa de ser um detalhe de cenário.
O acordo financeiro continua sendo uma boa maneira de entender a importância dessa presença. Para conservar o leitor, era preciso escolhê-lo, acertar a remuneração e sustentar coletivamente a despesa. O salário já tinha outros destinos bastante urgentes. Ainda assim, um pedaço dele ficava reservado para ouvir a próxima página.

