O leilão estava marcado para as onze da manhã de 10 de agosto de 1840, na pequena cidade belga de Binche. Havia endereço, nome de tabelião e um catálogo impresso com descrições suficientemente minuciosas para ocupar um colecionador por bastante tempo. À venda, 52 livros da biblioteca do falecido conde de Fortsas. Todos raríssimos. A qualidade mais extraordinária daquela coleção, porém, tinha sido omitida do anúncio. Nenhum dos livros existia.
O conde também era uma invenção. Seu criador, o bibliófilo belga Renier Chalon, dera-lhe uma obsessão que fazia o personagem parecer especialmente respeitável entre outros obcecados. Fortsas só admitia na estante obras das quais possuísse o único exemplar conhecido. Se descobrisse outra cópia, desfazia-se da sua. Um livro podia continuar igualmente interessante depois da descoberta, mas isso era problema de quem estivesse interessado em ler.
A regra tinha uma vantagem prática para o autor da brincadeira. Se ninguém encontrava aqueles títulos nos repertórios bibliográficos, a ausência confirmava justamente o que os tornava desejáveis. A biblioteca fora montada para reunir o que não se encontrava em biblioteca alguma. Na apresentação da Universidade de Delaware, que conserva um exemplar do catálogo, essa exclusividade chegava ao ponto de excluir livros mencionados em outras publicações.
Chalon conhecia o terreno em que pisava. Era um estudioso de antiguidades e livros, com intimidade suficiente com o mercado para fabricar iscas específicas. A descrição de um exemplar do catálogo pela Christie’s observa que os títulos foram pensados para atrair determinados colecionadores belgas e alguns parisienses. A fraude literária exigia trabalho de escritor e conhecimento de bibliografia. Um amador teria inventado tesouros genéricos. Chalon sabia para quem estava escrevendo.
O impressor Emmanuel Hoyois deu corpo ao empreendimento. Na oficina de Mons, o catálogo ganhou papel, tinta e a aparência convencional de um documento de venda. Entre as estratégias de verossimilhança estavam referências a autores e impressores verdadeiros. Para explicar a escassez de certas obras, o texto alegava supressões motivadas por conteúdos ofensivos ou perigosos. Em outros casos, confessava não saber por que o volume era tão raro. Uma pequena dúvida bem colocada pode dar mais confiança do que uma explicação impecável.
Chegaram pedidos de informação e encomendas de representação no leilão. Nem todo mundo caiu. A própria Christie’s registra que houve pessoas que perceberam a brincadeira e outras que colaboraram com ela. Esse detalhe faz bem à história, tão sujeita a virar uma parábola sobre a estupidez geral dos eruditos. Bastava que alguns especialistas acreditassem. O catálogo já tinha encontrado leitores dispostos a transformar suas descrições em ofertas.
O que existia nessa história?
Renier Chalon, o impressor Emmanuel Hoyois e os exemplares do catálogo eram reais. O conde, os livros, o tabelião e a biblioteca pública que teria comprado a coleção faziam parte da invenção. A tiragem de 132 exemplares se refere ao catálogo de 1840.
Antes da data anunciada, entrou em circulação um aviso de cancelamento. A coleção inteira teria sido adquirida para a biblioteca pública de Binche. Era uma saída elegante, embora apresentasse um defeito semelhante ao dos lotes. A cidade não possuía a tal biblioteca. Para retirar de cena uma instituição imaginária, Chalon recorrera a outra. O tabelião e o endereço anunciados também faziam parte da montagem, segundo a documentação apresentada pelo Trinity College, em Dublin.
As consultas recebidas pelo impressor e as encomendas feitas em nome de interessados dão uma medida mais precisa do alcance da brincadeira. A circulação do catálogo já mobilizava pessoas antes que qualquer livro pudesse ser examinado. Era o bastante para Chalon. Os compradores tinham diante de si descrições, referências e uma promessa de exclusividade. A expectativa de encontrar o exemplar único fizera o serviço.
A colaboração entre os dois responsáveis não teve um encerramento tão pacífico. Em 1857, Hoyois publicou “Documents et Particularités Historiques sur le Catalogue du Comte de Fortsas”, reunindo material sobre a brincadeira. Chalon tentou impedir a publicação. O Trinity College guarda esse relato, correspondência relacionada ao caso, reimpressões e notícias. O catálogo tinha produzido uma história própria, com documentos em quantidade bem superior à dos livros que conseguira colocar à venda.
E produziu também um objeto que atendia, enfim, ao gosto dos colecionadores. Foram impressos 132 exemplares da edição original, segundo os registros das casas de leilão, com algumas cópias em suportes especiais. A descrição, que antes servia para anunciar raridades imaginárias, passou a identificar uma raridade verificável. Era possível examinar papel, encadernação, procedência e estado de conservação. Dessa vez, havia o que examinar.
Em 2019, a Sotheby’s incluiu um exemplar no leilão “Important Manuscripts, Continental Books and Music”, com estimativa de 2 mil a 3 mil libras. O aviso que cancelava a venda de 1840 estava encadernado junto dele. Quem se interessasse pelo lote levaria para casa o catálogo de uma biblioteca inexistente e a explicação, igualmente falsa, de por que ela não seria vendida. O catálogo, pelo menos, podia ser entregue.

