A beleza está em muito mais do que pode captar nossa humana miopia, e, por essa razão, escapa-nos esse movimento tão sutil, como o da delgada bailarina num palco suntuoso. Expectativas acerca do futuro e os planos cercados de delírio que traçamos para o porvir são só uma promessa de que o hoje desdenha, logo, parece mais razoável ocupar-se daquilo que se tem de mais concreto e menos ilusório, a massa de carne e ossos que também somos. O cinema sempre se saiu bem ao especular sobre as correlações entre as normas tácitas que nos regem e nossa própria identidade, e “Segredo Obscuro” corrobora esse postulado. O filme de Max Minghella não deixa nada a desejar a boas produções que se enfronham pelos labirintos da questão, a exemplo de “Replace” (2017), dirigido por Norbert Keil; “A Pele Que Habito” (2011), levado à tela por Pedro Almodóvar; ou “A Morte lhe Cai Bem” (1992), a sátira gótica e tragicômica de Robert Zemeckis — para não falar de “A Substância” (2024), um seu contemporâneo muito mais incensado, porém menos sutil e meio trash, a cargo de Coralie Fargeat. Minghella faz da busca pela juventude e pela harmonia exterior indelével uma fonte de reflexão e cenas pródigas de ironia e humor lúgubre, dom que veio de casa.
Espelho, espelho meu
Samantha Lake quer reviver seus dias de glória. Ex-estrela de uma aclamada sitcom, o sucesso e os convites para novos projetos rarearam à medida que os anos foram correndo e a passagem do tempo exigiu mais frescor. Desolada, como se seu drama já não fosse aflitivo o bastante, ela ainda tem de lidar com uma doença de pele que pode enterrar de vez qualquer chance de recomeço, e então decide procurar uma certa clínica Shell, coordenada por Zoe Shannon, uma mulher exuberante e algo suspeita, mas que lhe garante que ela conseguirá o rejuvenescimento de que precisa. O roteiro de Jack Stanley vai imprimindo à trama um saboroso tom farsesco que mira o nonsense, sem abrir mão das blagues sobre a pressão especialmente cruel que a mulher sofre para seguir padrões estéticos draconianos. Filho de Anthony Minghella (1954-2008), vencedor do Oscar de Melhor Diretor por “O Paciente Inglês” (1996), Max Minghella também sabe fazer aflorar em seus atores exatamente aquilo que o público quer deles. O duelo entre o valor oculto da essência e o travo de amargor da pasteurização materializado por Elisabeth Moss e Kate Hudson é um espetáculo à parte.

