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Em 1983, o agente do FBI Terry Husk (Jude Law) chega a Coeur d’Alene, em Idaho, à procura de uma rotina menos desgastante. A possibilidade de sossego desaparece quando uma série de assaltos no noroeste dos Estados Unidos chama sua atenção. Os criminosos agem com uma finalidade que ultrapassa o enriquecimento pessoal. Roubam para financiar uma organização supremacista branca e preparar uma revolta armada contra o governo americano. É nessa investigação que Justin Kurzel concentra “A Ordem”, suspense de 2024 inspirado em acontecimentos reais.

Husk carrega o cansaço de muitos anos de serviço e a frustração de uma vida familiar distante. Law dá ao personagem uma aparência abatida, com bigode espesso e pouca disposição para gentilezas. Há algo convincente nesse homem que gostaria de trabalhar menos, mas não consegue ignorar os sinais de um caso grave. Sua experiência permite suspeitar de uma ligação entre os roubos, embora transformar essa suspeita em provas exija conhecer uma região onde ele acaba de desembarcar.

Uma cidade tranquila, crimes demais

O policial local Jamie Bowen (Tye Sheridan) oferece o conhecimento que falta ao veterano. Familiarizado com a comunidade, ele ajuda Husk a seguir pistas e identificar relações que um recém-chegado teria dificuldade para perceber. A colaboração dá à investigação uma base mais convincente. O agente federal precisa de outras pessoas, de informações e de tempo, três recursos que nem sempre estão disponíveis quando os assaltantes continuam agindo.

Sheridan interpreta Bowen com uma disposição que contrasta com o desgaste do colega. A diferença entre os dois rende uma parceria interessante, sem depender de piadas ou desentendimentos fabricados. Para o policial mais jovem, participar do caso significa lidar com uma ameaça que está perto de sua rotina. Os responsáveis circulam pela mesma região em que ele trabalha, e essa proximidade torna cada avanço mais arriscado.

Kurzel preserva a beleza das paisagens sem permitir que ela ofereça conforto. As florestas, as estradas e as pequenas comunidades pertencem ao território onde o grupo se organiza. A distância dos grandes centros ajuda a alimentar uma falsa impressão de segurança, enquanto os investigadores tentam estabelecer a relação entre crimes espalhados pelo noroeste americano.

Assaltos para financiar o extremismo

Do outro lado está Bob Mathews (Nicholas Hoult), líder de uma organização neonazista que pretende transformar o ódio racial em insurreição. Ele precisa de dinheiro para sustentar o grupo e seus planos. Bancos e carros-fortes passam a ser fontes de financiamento, ao lado das operações de falsificação. A investigação exige, portanto, descobrir quem executa os roubos e o que os responsáveis pretendem fazer com os recursos.

Essa ligação mantém o enredo compreensível mesmo quando o caso ganha dimensão. Cada assalto tem uma finalidade dentro do projeto de Mathews. Para Husk, prender um ladrão ou recuperar uma quantia pode representar um avanço insuficiente diante de uma organização que segue recrutando e se preparando para novos ataques. O trabalho policial precisa alcançar a estrutura que permite a continuidade dos crimes.

Hoult é especialmente bom ao preservar a capacidade de persuasão do personagem. Mathews não precisa parecer furioso a cada minuto para ser ameaçador. Ele sabe atrair seguidores, oferecer pertencimento e apresentar a violência como compromisso com uma causa. Sua segurança torna mais inquietante a passagem entre a conversa de recrutamento e a participação em ações criminosas.

O ator também impede que o extremista se transforme numa figura distante, reconhecível apenas por gestos espalhafatosos. O perigo está na facilidade com que ele consegue formar um grupo disposto a obedecer. Ao acompanhar esse recrutador, Kurzel concentra a atenção no comportamento de alguém que precisa conquistar confiança antes de exigir lealdade.

As pistas também estão nos livros

Entre os elementos examinados pelos investigadores está “The Turner Diaries”, romance racista que inspira o projeto dos extremistas. Sua presença ajuda a ligar os crimes a um plano político. Husk e seus colegas precisam olhar para além do dinheiro roubado e reconhecer as ideias que orientam a escolha dos alvos e a preparação dos ataques.

Esse detalhe dá substância à apuração. A organização deixa rastros materiais, mas também compartilha referências que ajudam a identificar seus objetivos. O roteiro trabalha melhor quando acompanha esse esforço de associação, permitindo que o público compreenda por que um livro importa para a investigação de assaltos. A propaganda tem leitores dispostos a transformar suas páginas em violência.

Kurzel alterna o trabalho dos policiais com as atividades de Mathews e seus seguidores. O espectador conhece aspectos da ameaça que ainda precisam ser comprovados pelas autoridades. Dessa diferença nasce boa parte do suspense. Enquanto Husk tenta reunir informações suficientes para agir, os homens procurados continuam tendo oportunidades de roubar e fortalecer o grupo.

Jude Law sustenta o peso da busca

Law dá consistência ao investigador sem fazer do desgaste uma coleção de maneirismos. Seu Husk parece ter acumulado trabalho demais e afeto de menos. Ainda assim, permanece atento ao caso. O interesse está nessa combinação de fadiga e insistência, que ajuda a sustentar os trechos de apuração entre os assaltos e as perseguições.

A concentração em Husk e Mathews deixa alguns personagens de apoio com menos espaço do que poderiam ter. Bowen se beneficia da presença de Sheridan, mas nem todos ao redor recebem o mesmo cuidado. Também há convenções conhecidas do gênero, sobretudo na figura do veterano solitário que assume uma missão maior do que gostaria. A interpretação de Law dá personalidade a esse material, embora o roteiro nem sempre se afaste do caminho esperado.

“A Ordem” mantém os crimes ligados às ambições de seus autores. A violência tem alvos, financiamento e homens empenhados em executá-la. Kurzel consegue fazer dessas relações uma investigação envolvente, apoiada em duas atuações que sustentam lados muito diferentes da perseguição. Para Husk, a tarefa fica mais difícil a cada novo roubo, porque o dinheiro que desaparece de um carro-forte pode pagar a preparação do próximo ataque.


Filme: A Ordem
Diretor: Justin Kurzel
Ano: 2024
Gênero: Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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