Em Nova Orleans, em 1918, Benjamin Button (Brad Pitt) nasce com o corpo de um idoso e começa a rejuvenescer enquanto as pessoas ao redor envelhecem. Abandonado pelo pai, ele cresce numa casa de repouso, onde conhece Daisy, a menina que permanecerá ligada à sua vida. Esse desencontro entre o calendário e o corpo sustenta “O Curioso Caso de Benjamin Button”, romance de fantasia dirigido por David Fincher e lançado em 2008. Para os dois, gostar um do outro será apenas parte do trabalho de conseguir ficar juntos.
A história começa em 2005, quando o furacão Katrina se aproxima da cidade. Internada num hospital, Daisy (Cate Blanchett) pede à filha, Caroline (Julia Ormond), que leia o diário de Benjamin. A leitura recupera sua infância e os acontecimentos que aproximaram e afastaram o casal durante décadas. Fincher estabelece desde cedo uma intimidade entre mãe e filha, mas preserva as razões pelas quais aquelas lembranças precisam ser compartilhadas naquele momento.
Uma infância na casa de repouso
O nascimento de Benjamin termina em abandono. Sua mãe morre no parto, e Thomas Button (Jason Flemyng), assustado com a aparência do bebê, deixa o filho à porta de uma casa de repouso. Queenie (Taraji P. Henson), cuidadora do estabelecimento, acolhe a criança apesar da avaliação médica pouco animadora. Onde o pai enxergou algo insuportável, ela reconhece alguém que precisa de proteção.
Henson dá a Queenie uma presença calorosa, firme e livre de solenidade. Há comida para preparar, moradores para atender e uma criança para criar. A atriz faz dessa rotina a base do afeto. Seu carinho tem a segurança de quem já decidiu assumir a responsabilidade e agora precisa dar conta dela.
Cercado por idosos, Benjamin cresce num ambiente em que sua aparência chama menos atenção. A semelhança, porém, termina no corpo. Ele tem curiosidade de menino, vontade de sair e interesse pelo que acontece além da casa. Pitt preserva essa disposição sem infantilizar o personagem. Por trás do rosto envelhecido, há alguém começando a conhecer as pessoas e ainda sem experiência para avaliar suas intenções.
Daisy tem uma vida própria
Daisy, interpretada na infância por Elle Fanning, conhece Benjamin durante as visitas à avó, moradora da instituição. A menina se aproxima dele com uma curiosidade que dispensa o espanto dos adultos. A amizade nasce dessa disponibilidade para conversar e brincar, embora os dois cresçam em condições muito diferentes.
Na fase adulta, Daisy se dedica à dança e constrói uma vida que inclui trabalho, viagens e outros relacionamentos. Blanchett dá à personagem ambição e uma impaciência convincente. Ela quer ocupar os palcos e aproveitar as oportunidades de uma carreira exigente. O afeto por Benjamin existe, mas precisa conviver com desejos que não têm relação com ele.
É aí que o romance ganha interesse. Benjamin guarda a lembrança da menina que conheceu na casa de repouso. Daisy cresceu, mudou e fez escolhas durante os períodos em que estiveram separados. Quando se reencontram, nenhum dos dois pode exigir que o outro continue sendo aquela pessoa da infância.
Blanchett traz energia a essas diferenças, enquanto Pitt trabalha com gestos menores e uma reserva constante. A combinação tem delicadeza, embora a contenção dele às vezes deixe Benjamin passivo demais. Daisy pede uma presença capaz de acompanhar sua vida adulta, e ele frequentemente parece mais à vontade observando de longe.
Viagens e um amor passageiro
O trabalho num rebocador, ao lado do capitão Mike (Jared Harris), permite que Benjamin conheça lugares distantes de Nova Orleans. Fora da proteção de Queenie, ele precisa lidar com outras personalidades, executar tarefas e participar de uma rotina em que ninguém tem tempo para cuidar dele o dia inteiro.
Harris dá ao capitão uma mistura de aspereza e frustração que ajuda a tirar Benjamin do centro das atenções. Os demais também carregam planos, arrependimentos e problemas. Essa convivência faz bem à história porque o protagonista passa a participar da vida dos outros, em vez de permanecer apenas sob observação.
Durante uma estadia na Rússia, ele se envolve com Elizabeth Abbott (Tilda Swinton), uma mulher casada que encontra nas conversas noturnas do hotel uma companhia inesperada. Swinton oferece à personagem um cansaço discreto e uma inteligência que tornam o encontro mais interessante do que a simples descoberta amorosa.
Elizabeth tem lembranças e projetos anteriores à chegada de Benjamin. A aproximação acontece dentro das possibilidades dela, com horários e restrições que ele precisa aceitar. Para alguém que ainda está aprendendo a viver fora da casa de repouso, esse relacionamento exige lidar com uma pessoa cuja disponibilidade tem limites.
O corpo muda, o afeto permanece
Fincher acompanha essas experiências com bastante paciência. Em algumas passagens, a demora permite perceber o peso dos anos e das ausências. Em outras, as viagens e os encontros secundários ocupam espaço demais, especialmente quando cresce a vontade de voltar a Daisy. A duração cobra alguma disposição do espectador.
O rejuvenescimento, por sua vez, permanece ligado às relações de Benjamin. Quando ele retorna a um lugar, as pessoas envelheceram durante sua ausência. Seu corpo segue o caminho contrário, mas as lembranças se acumulam. Ficar mais jovem não apaga o que viveu nem devolve as oportunidades que deixou passar.
Essa diferença sustenta a parte mais sensível de “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Benjamin e Daisy precisam lidar com algo familiar a muitos casais, a dificuldade de desejar a mesma vida na mesma época. A fantasia torna esse problema visível no corpo dos dois, sem dispensar as escolhas, as recusas e as responsabilidades que acompanham qualquer aproximação.
No hospital, Caroline continua lendo o diário enquanto Daisy escuta. Depois das viagens e dos reencontros, Fincher volta àquela conversa entre mãe e filha. A intimidade da leitura recupera o interesse que algumas passagens dispersaram. Caroline vira mais uma página, e Daisy recebe de volta uma lembrança que já não consegue contar sozinha.

