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A polarização política que o Brasil atravessa em 2026 não é exatamente uma novidade na história. O Travessia desta semana fala sobre políticos e eleições, e entre as 10 músicas que o podcast apresenta nesta edição está “Se eu fosse o Getúlio”, de Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti, que ganhou as rádios na voz de Nelson Gonçalves em 1953. O país vivia ali uma crise institucional sob o governo Getúlio Vargas.

Nelsão era então o cantor mais popular do país, depois da morte do Francisco Alves em 52 e antes da ascensão do Cauby Peixoto a partir de 54. E essa popularidade tem um peso evidente no sucesso dessa marchinha, uma crônica da situação política daquele tumultuado governo Getúlio Vargas, que dessa vez havia voltado ao poder pelo voto em 51, duas décadas depois de ter feito a revolução que lhe permitiu governar ditatorialmente até 1945.

“Se eu fosse o Getúlio” tem muito de Brasil, pro bem e pro mal. É uma marchinha elétrica, pra cima, de fácil assimilação.

Ao mesmo tempo, é também autoritária, agressiva, divisiva:

O Brasil tem muito doutor
Muito funcionário, muita professora
Se eu fosse o Getúlio mandava
Metade dessa gente pra lavoura

Mandava muita loira plantar cenoura
E muito bonitão plantar feijão
E essa turma da mamata
Eu mandava plantar batata

Pra entender isso aqui, é preciso voltar à turbulência política daquele tempo.

Na excelente trilogia biográfica do GV escrita pelo Lira Neto, um dos grandes biógrafos brasileiros, há um episódio no qual o Getúlio, depois de estabelecer uma série de direitos básicos trabalhistas para as camadas mais pobres da população, estava em um jantar com grandes empresários, na época chamados de “industriais”. E eles achincalhavam o presidente, que respondia algo como: “Vocês deveriam me agradecer porque as minhas ações vão manter vocês vivos”.

Foram décadas em que havia muita fábrica, muito trabalhador e muito sindicato (cada vez mais organizados), e havia o comunista Luiz Carlos Prestes, um ídolo popular, que sonhava em fazer uma revolução nos moldes soviéticos no país.

Então, o pouco que as classes trabalhadoras tiveram naquela época era visto como um absurdo pelas elites dominantes e por grande parte da classe média urbana do país. Daí a letra que diz que “o Brasil tem muito funcionário” — ou seja, o funcionário público, classe média — e “muita professora”! Porque vale lembrar que, naquele tempo, professor ganhava bem e era de classe média em diversas cidades.

“Mandava muita loira plantar cenoura” — em um país de maioria negra ou mestiça, loiro nunca foi sinônimo de pobre, em que pese a realidade diferente da Região Sul.

Então, há todo um contexto de classe na marchinha. A classe média e a elite eram a base da oposição liderada sobretudo pelo Carlos Lacerda, governador da Guanabara — e também recentemente biografado, agora pelo jornalista Mario Magalhães. As elites econômicas, a imprensa, todos unidos em um discurso anticorrupção — isso lembra alguma coisa? —, uma tentativa de impeachment, rechaçada pelo Congresso, e, posteriormente, um manifesto dos militares pedindo a saída do Getúlio, já depois de a marchinha estar nas rádios.

Mas o presidente seguia com o apoio das camadas populares, e o cantor mais popular do país dava voz a elas.

Essa história termina com Getúlio Vargas a dar um tiro no próprio peito a 24 de agosto de 1954 — em suas próprias palavras, saindo da vida para entrar na História. E uma revolta pública que culminou em empastelamento de jornais e no arrefecimento golpista das elites. O golpe seria adiado em 10 anos, mas isto é outra história.


PODCAST TRAVESSIA
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#221 — Políticos e eleições Fernando Vives e Edison Veiga · Central 3
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