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Emma Morley (Anne Hathaway) e Dexter Mayhew (Jim Sturgess) se conhecem em Edimburgo, em 15 de julho de 1988, depois da formatura universitária. A noite que passam juntos poderia terminar numa despedida qualquer, mas os dois decidem manter contato. Ela deseja escrever e conquistar alguma estabilidade. Ele quer aproveitar a liberdade, viajar e descobrir o que fazer sem muita pressa. Em “Um Dia”, romance de 2011 dirigido por Lone Scherfig, essa amizade atravessa duas décadas, acompanhada sempre na mesma data, enquanto o afeto esbarra em empregos, outros relacionamentos e escolhas pouco generosas.

A diferença entre os dois aparece antes de qualquer declaração amorosa. Emma vem de uma família trabalhadora e sabe que precisará pagar as próprias contas. Dexter tem dinheiro e a segurança de quem pode experimentar caminhos sem comprometer o aluguel. Ele chega à vida adulta cheio de confiança. Ela leva ambição, inteligência e uma insegurança que costuma disfarçar com comentários irônicos. A atração existe, mas nenhum deles sabe muito bem o que fazer com ela.

Depois da festa, as contas

Em Londres, Emma aceita um emprego num restaurante mexicano enquanto tenta abrir espaço para a escrita. O trabalho garante renda, porém fica longe da vida que imaginava ao sair da universidade. A frustração tem algo reconhecível para quem já terminou os estudos esperando uma oportunidade e recebeu, em seu lugar, uma escala de serviço. Hathaway dá peso a esse desconforto sem transformar a personagem numa coleção de reclamações. Emma continua espirituosa, embora nem sempre tenha energia para rir da própria situação.

Dexter dispõe de uma liberdade que a amiga não tem. Pode viajar, conhecer pessoas e adiar compromissos. Sturgess faz dele um rapaz agradável, daqueles que chegam a uma conversa certos de que serão bem recebidos. O charme ajuda a explicar o interesse de Emma, mas também torna seus defeitos mais irritantes. Ele se acostumou tanto à aprovação que nem sempre percebe quando está sendo inconveniente. Para ela, preservar a amizade significa conviver com alguém que recebe oportunidades sem precisar fazer o mesmo esforço.

Scherfig acerta ao deixar essa desigualdade participar das conversas. Quando Dexter oferece entusiasmo diante das dificuldades da amiga, suas palavras carregam a despreocupação de quem possui uma reserva financeira. Emma precisa pensar em salário e futuro antes de arriscar. Ele pode se permitir mais uma tentativa. O carinho entre os dois não apaga a distância entre suas condições de vida.

Companhia não resolve tudo

No restaurante, Emma conhece Ian (Rafe Spall), um aspirante a comediante que tenta conquistá-la com dedicação e piadas. A convivência oferece companhia, mas o entusiasmo dele supera o dela. Spall dá ao personagem uma mistura de insistência e fragilidade. Ian quer ser engraçado, quer ser amado e, de preferência, gostaria que essas duas coisas acontecessem juntas. Nem sempre consegue uma delas.

A relação ajuda a mostrar uma Emma menos idealizada. Ela também aceita situações que não correspondem inteiramente ao que deseja, seja por cansaço, afeição ou dificuldade de tomar uma decisão dolorosa. Seu vínculo com Dexter permanece, acrescentando desconforto a um namoro que já apresenta problemas próprios. Hathaway trabalha bem essa contradição. A personagem pode gostar da presença de Ian e ainda sentir falta de uma afinidade que o esforço dele não consegue produzir.

O roteiro de David Nicholls, adaptado de seu próprio romance, dá aos protagonistas parceiros e ocupações que interferem na amizade. Eles não ficam esperando um pelo outro, disponíveis até a próxima conversa. Trabalham, se envolvem com outras pessoas e cometem erros. Essa vida fora dos encontros torna a relação mais interessante, porque cada aproximação acontece entre adultos que já assumiram compromissos.

A fama muda a conversa

Dexter encontra na televisão uma profissão compatível com sua desenvoltura e seu gosto por atenção. O reconhecimento vem acompanhado de festas e excessos, reforçando hábitos que já estavam presentes. Sturgess é especialmente convincente quando o sorriso do personagem começa a perder a graça. O rapaz continua sedutor, mas passa a escutar menos e a ocupar mais espaço nas conversas.

Emma precisa lidar com essa mudança enquanto tenta melhorar a própria vida profissional. O amigo que antes oferecia companhia passa a exigir paciência. Gostar dele não torna suas atitudes menos desagradáveis, e Hathaway dá firmeza à personagem quando o afeto já não basta para justificar tudo. Esses atritos estão entre os melhores trechos de “Um Dia”. A intimidade permite que os dois se machuquem de maneiras que um conhecido dificilmente conseguiria.

Alison (Patricia Clarkson), mãe de Dexter, também questiona o comportamento do filho. Clarkson tem pouco tempo em cena, mas consegue combinar carinho e desaprovação sem exagerar nenhum dos dois. Diante dela, ele deixa de ser o apresentador cercado de atenção e volta a ser alguém que precisa responder pelas próprias escolhas. A atriz acrescenta uma firmeza importante às relações familiares de Dexter, sobretudo porque sua preocupação não depende do prestígio dele.

Um ano entre duas conversas

A escolha de acompanhar os personagens sempre em 15 de julho dá personalidade a “Um Dia”. A cada retorno, o espectador precisa observar o que mudou e descobrir o que aconteceu durante os meses ausentes. Roupas, empregos e maneiras de falar ajudam a perceber a passagem dos anos. Uma conversa interrompida pode dar lugar a uma situação já bastante diferente, sem que tenha havido tempo para acompanhar todos os passos.

Essa estrutura também impõe a principal dificuldade da adaptação. Scherfig atravessa certas mudanças depressa demais, especialmente quando Emma e Dexter precisam de mais convivência para tornar suas decisões convincentes. Há momentos em que o salto anual encerra uma conversa que merecia continuar. O relacionamento ganha duração no calendário, mas algumas fases recebem menos atenção do que sua importância pede.

Ainda assim, Hathaway e Sturgess sustentam o interesse por duas pessoas que nem sempre são agradáveis, coerentes ou corajosas. Ela consegue transmitir o desgaste de esperar reconhecimento profissional e cuidado afetivo. Ele deixa aparecer a imaturidade por trás da facilidade de conquistar os outros. A química funciona melhor quando inclui irritação, constrangimento e pequenas falhas de atenção.

“Um Dia” cresce nessas conversas em que a familiaridade já não garante uma boa companhia. Emma quer ser ouvida, enquanto Dexter frequentemente está ocupado demais consigo mesmo. O sentimento permanece, mas passa a cobrar atitudes que antes pareciam dispensáveis. Quando ela exige respeito pelo trabalho e pelas escolhas que fez, ele precisa interromper a própria exibição e escutar.


Filme: Um Dia
Diretor: Lone Scherfig
Ano: 2011
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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