Richard (Nick Frost) e Susan (Aisling Bea) levam os filhos adolescentes para passar férias em Svalta, uma ilha remota da Suécia, porque querem descansar e acompanhar uma celebração tradicional. A recepção, porém, está longe de ser acolhedora. Em “Férias Macabras”, comédia de terror de 2024 dirigida por Steffen Haars, os visitantes insistem no passeio apesar dos avisos para desistir. O casal chega disposto a aproveitar cada minuto da viagem, enquanto os moradores parecem empenhados em fazer os britânicos pegar o primeiro barco de volta.
A família inclui Sam (Sebastian Croft) e Jessie (Maisie Ayres), que participam desse programa escolhido pelos pais. Antes mesmo da travessia, os quatro ouvem recomendações para ficar longe do destino. Richard e Susan preferem manter os planos. Existe algo bastante reconhecível nessa teimosia de férias. Depois de escolher o lugar, reservar a hospedagem e convencer os filhos a acompanhar o passeio, admitir uma escolha ruim parece custar mais do que enfrentar uma população inteira de cara fechada. Em Svalta, essa insistência deixa os visitantes nas mãos de pessoas que desaprovam sua presença.
Uma festa com lembranças terríveis
Susan tem interesse na celebração local, dedicada a um episódio traumático da história da ilha. Duzentos anos antes, uma quarentena imposta pelos britânicos deixou os habitantes isolados e sem recursos. A fome levou parte deles ao canibalismo. Os descendentes preservam a memória desse período por meio de uma representação teatral, e a chegada de turistas ingleses durante os preparativos provoca ressentimento.
Para Susan, conhecer aquela tradição faz parte da experiência de viajar. Para os anfitriões, a curiosidade dos estrangeiros parece uma intromissão. Esse desencontro rende algumas das observações mais interessantes da comédia. O casal trata o sofrimento lembrado pelos moradores com a disposição animada de quem procura atrações para preencher o dia. Quando Richard fotografa Susan sorridente diante de um monumento aos mortos da quarentena, o entusiasmo turístico ganha uma inconveniência difícil de ignorar. Os visitantes querem boas recordações, mas oferecem aos habitantes mais um motivo para fechar a cara.
Aisling Bea é especialmente boa ao preservar a simpatia de Susan sem disfarçar sua falta de cerimônia. Há graça na convicção de que qualquer ambiente pode se tornar agradável com disposição suficiente. Só que os moradores têm outros planos, e a cordialidade do casal não abre muitas portas.
Uma casa sem privacidade
A hospedagem também oferece razões para desconfiar. Matts (Eero Milonoff), o proprietário da casa alugada, acompanha os visitantes por câmeras escondidas e demonstra um interesse perturbador por Jessie. Haars revela a vigilância ao público enquanto a família ainda tenta se acomodar. O lugar escolhido para descansar passa a carregar uma ameaça própria, independente da hostilidade nas ruas.
Jessie reage à atenção de Matts com firmeza. Maisie Ayres dá à personagem uma desenvoltura que torna esses encontros menos previsíveis. A jovem não se deixa intimidar facilmente, embora o proprietário tenha acesso à casa e informações que os hóspedes desconhecem. Essa diferença entre o que o público sabe e o que a família pode perceber sustenta boa parte do desconforto. Cada momento de aparente tranquilidade acontece num espaço em que alguém observa sem permissão.
O interesse de Matts pede um cuidado que algumas brincadeiras ao redor nem sempre recebem. Ainda assim, a presença dele acrescenta um perigo mais próximo e desagradável. Enquanto Richard e Susan se preocupam com a recepção dos habitantes, a filha precisa lidar com um homem que atravessa os limites da relação entre anfitrião e hóspede.
A reclamação que ninguém teme
Nick Frost, também responsável pelo roteiro, tira proveito da disposição de Richard para tratar a viagem como um serviço mal prestado. Diante dos problemas, ele ameaça deixar uma avaliação negativa da hospedagem. A reação é engraçada porque leva uma preocupação banal para um lugar onde ninguém parece particularmente interessado na reputação do anúncio.
Richard se agarra à autoridade de consumidor insatisfeito, ou melhor, à esperança de que algumas estrelas a menos possam incomodar pessoas que já demonstraram desprezo por sua presença e pela permanência de sua família. Frost acerta ao sustentar essa confiança inadequada sem transformar o personagem numa sequência de caretas. O pai ainda acredita ter algum poder de cobrança, mesmo quando suas reclamações não lhe garantem segurança.
A parceria com Bea mantém esses trechos vivos. Os dois dão ao casal uma familiaridade que dispensa muita apresentação. Basta vê-los defender o passeio para reconhecer o esforço de pais que desejam aproveitar as férias e resistem a qualquer sugestão de fracasso. Sam e Jessie completam esse grupo sem reproduzir o entusiasmo dos adultos. A diferença entre essas disposições ajuda a dar movimento às cenas, sobretudo quando a hostilidade dos moradores começa a se repetir.
A ameaça chega à porta
Durante a noite, pessoas mascaradas se reúnem do lado de fora da hospedagem, entoam cânticos e deixam animais mortos à entrada. Já fica difícil atribuir o tratamento recebido apenas a costumes locais. Os habitantes levam a intimidação até a casa, comprometendo o pouco conforto que os visitantes poderiam esperar depois de um dia desagradável.
Haars prolonga esse cerco, às vezes além do necessário. Depois de tantos olhares hostis e avisos, certas passagens acrescentam pouco ao que já foi estabelecido. Os moradores também recebem menos atenção do que o quarteto britânico e, em vários encontros, acabam restritos à tarefa de parecer ameaçadores. A comédia tem mais personalidade quando Richard e Susan insistem em suas pequenas preocupações de férias diante de uma situação cada vez menos hospitaleira.
“Férias Macabras” se desenvolve nessa convivência entre o desejo de aproveitar uma viagem e a incapacidade de admitir que chegou a hora de abandoná-la. Frost e Bea tornam a teimosia do casal divertida, mesmo quando a repetição dos sinais de perigo enfraquece a espera. A celebração continua atraindo os visitantes, mas os preparativos pertencem a uma comunidade que os rejeita. Richard e Susan permanecem na ilha, e os moradores já sabem onde encontrá-los.

