James Bond (Daniel Craig) precisa proteger o serviço secreto britânico depois que uma missão em Istambul termina mal e informações sobre agentes infiltrados caem nas mãos de criminosos. Em “007 — Operação Skyfall”, lançado em 2012 e dirigido por Sam Mendes, o roubo ameaça funcionários espalhados pelo mundo e coloca a chefe do MI6, M (Judi Dench), sob pressão. Para descobrir quem está por trás dos ataques, o espião volta ao trabalho num momento em que sua própria capacidade de atuar em campo está em dúvida.
A situação tira Bond daquela segurança quase insolente que costuma acompanhar o personagem. Ele continua elegante, sabe responder a uma provocação e preserva a disposição de entrar onde ninguém o convidou. Mas há desgaste no corpo e ressentimento nas conversas com a chefe. Craig aproveita essas fissuras para apresentar um homem que conhece seu ofício, embora já não possa contar com a mesma resistência de antes. O cargo permanece. Cumprir suas exigências ficou mais difícil.
Uma missão que deixa feridas
Na operação de abertura, Bond trabalha com Eve (Naomie Harris) para recuperar um disco rígido com informações sigilosas. Enquanto os agentes perseguem o responsável pelo roubo, M acompanha tudo de Londres e exige que a missão seja concluída. O problema está na distância entre dar uma ordem pelo rádio e executá-la em meio a uma perseguição. Eve precisa agir sob pressão, com informações incompletas e pouco tempo para avaliar o risco.
Mendes transforma essa diferença numa das questões mais interessantes da aventura. M tem responsabilidade sobre a segurança de muitos funcionários, mas depende de decisões que podem sacrificar aqueles que estão ao seu alcance. Dench sustenta essa contradição sem suavizar a personagem. Sua chefe cobra, insiste e aceita riscos. Bond, por sua vez, precisa conviver com o fato de que a confiança entre os dois inclui ordens das quais talvez nunca consiga se esquecer.
O ataque ao MI6 agrava a crise e obriga a agência a mudar sua base de operações. A ameaça chega ao lugar que deveria oferecer proteção aos funcionários. Para uma instituição acostumada a guardar segredos, perder o controle da própria sede é uma humilhação considerável. M precisa manter o trabalho em andamento enquanto responde por falhas que já não consegue esconder.
A chefe também está na mira
Gareth Mallory (Ralph Fiennes) acompanha a situação e questiona a permanência de M no comando. Ele exige prestação de contas, enquanto ela defende um trabalho cujos detalhes nem sempre podem ser apresentados em público. Fiennes dá ao personagem uma sobriedade que beneficia a disputa. Mallory tem razões para cobrar resultados, mesmo quando sua presença parece mais uma dificuldade na rotina da chefe.
Dench recebe espaço para fazer de M uma presença central em “007 — Operação Skyfall”. A personagem participa das decisões que movem a investigação, enfrenta cobranças e carrega um passado relacionado à ameaça atual. Sua autoridade permanece reconhecível na voz e na postura, mas já não basta para encerrar uma discussão. Quando precisa justificar suas escolhas, a chefe perde o privilégio de apenas transmitir ordens.
Essa relação dá peso ao retorno de Bond. Ele volta para ajudar uma mulher em quem confia, embora tenha motivos para guardar mágoa. Craig trabalha bem essa combinação de lealdade e irritação. O agente pode questionar M, mas continua disposto a executar a missão. Entre os dois, afeto raramente ganha uma declaração. Costuma chegar disfarçado de cobrança profissional.
Um veterano cercado de novidades
Antes de voltar ao campo, Bond passa por avaliações que colocam sua condição física e emocional sob suspeita. A dificuldade tem interesse porque atinge um personagem habituado a ser o funcionário mais competente da sala. Ele precisa recuperar espaço sem admitir quanto deseja permanecer naquele trabalho. Craig deixa o esforço aparecer nos movimentos e nas pausas, preservando o orgulho do agente mesmo quando o desempenho o contraria.
O encontro com Q (Ben Whishaw), na National Gallery, acrescenta uma graça discreta a esse desconforto. O especialista responsável pelos equipamentos é jovem, fala com segurança e não demonstra grande cerimônia diante do veterano. Bond parece esperar alguém cuja idade combine melhor com a importância do cargo. Recebe um rapaz capaz de responder às suas provocações sem levantar a voz.
Whishaw e Craig acertam o ritmo da conversa. Um domina os recursos digitais. O outro sabe o que acontece quando é necessário usá-los longe de uma mesa. A implicância rende porque nenhum dos dois está inteiramente errado. Bond sai equipado para a missão, mas precisa aceitar que experiência e autoridade já não pertencem apenas aos profissionais mais velhos.
Uma pista leva até Silva
A investigação passa por Xangai, onde Bond segue Patrice (Ola Rapace), um assassino ligado ao caminho das informações roubadas. Mendes alterna a perseguição com momentos de espera e observação. O agente precisa descobrir o que o homem está fazendo antes de conseguir avançar. Entre vidros, reflexos e silhuetas, enxergar o adversário exige atenção, e perder um movimento pode custar a pista.
A fotografia de Roger Deakins participa dessa dificuldade. As luzes da cidade iluminam o ambiente sem entregar tudo o que ocorre nele. A beleza da sequência tem uma utilidade concreta para o suspense, pois o espectador procura distinguir os corpos enquanto Bond tenta acompanhar seu alvo. Mendes dá tempo à observação antes de exigir força do personagem.
O percurso leva a Silva (Javier Bardem), o homem ligado aos ataques contra o MI6. Seu interesse pela agência está atravessado por questões pessoais, especialmente relacionadas a M. Bardem entra com uma calma desconcertante. Fala sem pressa, prolonga as conversas e parece apreciar o desconforto de quem precisa escutá-lo. Diante dele, Bond perde parte da vantagem que costuma obter pela iniciativa.
Lealdade sob pressão
Bardem faz de Silva um adversário memorável ao combinar cordialidade, vaidade e crueldade. Há algo incômodo em sua disposição para conversar, porque a gentileza nunca oferece segurança. Craig responde com contenção, sustentando a atenção de Bond mesmo quando o agente precisa ouvir mais do que gostaria. O encontro ganha força pela diferença entre os dois atores, sem depender de uma sucessão de golpes.
Algumas passagens pedem uma boa dose de tolerância com a capacidade de planejamento do vilão. Silva parece contar com circunstâncias favoráveis demais, e certos acontecimentos exigem mais fé do que a investigação deveria permitir. Ainda assim, Mendes preserva o interesse ao manter a ameaça ligada a pessoas que já conhecemos. M precisa defender suas decisões. Bond precisa trabalhar apesar do desgaste. Ambos têm algo a perder além do emprego.
“007 — Operação Skyfall” ganha força ao deixar esses profissionais experientes lidarem com falhas, ressentimentos e cobranças sem abandonar o prazer da aventura. Craig oferece um Bond mais vulnerável, Dench sustenta uma chefe cuja firmeza tem custos, e Bardem transforma uma conversa educada numa situação perigosa. Com funcionários expostos e a autoridade de M ameaçada, o agente aceita voltar ao campo para localizar Silva.

