Em novembro de 2001, Mohamedou Ould Slahi (Tahar Rahim) é levado para interrogatório na Mauritânia, sob suspeita de envolvimento com os atentados de 11 de setembro. Depois de passar por outras prisões, chega à base americana de Guantánamo, em Cuba, onde permanece sem acusação formal e sem julgamento. Anos depois, duas advogadas assumem sua defesa e tentam descobrir quais provas sustentam o encarceramento. Essa história real é o ponto de partida de “O Mauritano”, drama de 2021 dirigido por Kevin Macdonald, que acompanha a disputa pela liberdade de um homem impedido até de conhecer as informações usadas contra ele.
Nancy Hollander (Jodie Foster) aceita examinar o caso e leva a colega Teri Duncan (Shailene Woodley) para conhecer Slahi. As duas precisam ouvir seu relato, consultar documentos e apresentar à Justiça argumentos contra a prisão. A tarefa começa com uma dificuldade bastante humana. Depois de tantos interrogatórios, ele tem motivos para desconfiar de qualquer pessoa que chegue fazendo perguntas.
Rahim trabalha essa resistência com delicadeza. Seu personagem observa as visitantes, escolhe as palavras e procura descobrir quanto pode contar. Mesmo sob vigilância, conserva curiosidade e certo humor, o que torna as conversas menos previsíveis. O ator dá a Slahi uma personalidade que ultrapassa o sofrimento. Ele é alguém com lembranças, opiniões e vontade de conversar, embora tenha aprendido a temer o que uma conversa pode provocar.
Nancy, por sua vez, não exige simpatia nem promete milagres. Foster interpreta a advogada com firmeza, sem transformar cada intervenção em uma palestra. Sua postura pode parecer fria, mas combina com uma profissional que precisa trabalhar enquanto todos discutem se aquele homem merece ser defendido. Para ela, a possibilidade de contestar uma prisão precisa existir antes de qualquer conclusão sobre culpa.
Teri chega com mais dúvidas. A hipótese de representar alguém ligado ao terrorismo pesa sobre sua disposição para ouvir. Woodley oferece à personagem uma insegurança convincente, sobretudo diante da segurança de Nancy. A relação entre as duas poderia receber mais espaço, porque há ali uma diferença interessante entre conhecer um princípio jurídico e sustentá-lo diante de um cliente que desperta receio.
Caixas cheias de informações escondidas
Quando as advogadas solicitam os arquivos oficiais, recebem uma quantidade impressionante de papel. O problema aparece na leitura. Páginas cobertas por tarjas pretas ocultam os dados necessários para preparar a defesa. O governo entrega documentos, mas mantém sob sigilo boa parte do conteúdo. A burocracia cumpre a formalidade e deixa as perguntas quase no mesmo lugar.
Macdonald tira dessas dificuldades boa parte do suspense. A expectativa nasce de uma autorização que demora, de um registro incompleto, de uma informação que alguém se recusa a fornecer. Enquanto Nancy e Teri trabalham, Slahi continua preso. O tempo gasto nos escritórios tem um peso diferente para quem não pode sair da cela.
Essa ligação entre papelada e cativeiro dá força às passagens jurídicas. Não é preciso conhecer os detalhes da legislação americana para acompanhar o impasse. As advogadas precisam responder às suspeitas, mas não conseguem examinar tudo o que as autoridades afirmam possuir. Foster transmite bem o desgaste de insistir em pedidos elementares diante de funcionários que tratam o sigilo como resposta suficiente.
O promotor precisa examinar as provas
O tenente-coronel Stuart Couch (Benedict Cumberbatch) recebe a missão de preparar uma acusação que pode levar Slahi à pena de morte. Ele tem uma ligação pessoal com uma vítima dos atentados, o que acrescenta uma carga emocional ao trabalho. Ainda assim, precisa reunir provas que possam ser apresentadas e defendidas perante um tribunal.
Cumberbatch interpreta Couch com contenção. O militar respeita a hierarquia e leva a tarefa a sério, mas começa a fazer perguntas sobre a origem das declarações atribuídas ao prisioneiro. Quando tenta consultar os registros dos interrogatórios, também esbarra em restrições. Trabalhar para a acusação não lhe garante acesso a tudo o que precisa saber.
A presença de Couch impede que a disputa fique limitada às visitas das advogadas e à espera de Slahi. Ele examina o caso por outro caminho, dentro das instituições responsáveis pela prisão. Esse núcleo acrescenta interesse porque acompanha alguém obrigado a lidar com falhas no material que deveria sustentar seu próprio trabalho. Algumas conversas são breves demais, porém, e deixam pouco espaço para que o desconforto amadureça.
Um homem além da cela
Slahi coloca suas lembranças no papel para fornecer às advogadas um relato que os arquivos censurados não oferecem. “O Mauritano” foi adaptado de suas memórias, publicadas em “Guantánamo Diary”. A escrita permite que parte de sua experiência atravesse os muros da prisão, embora os textos também estejam sujeitos ao controle das autoridades. www.bfi.org.uk
É nesse esforço de contar o que viveu que Rahim se torna o centro emocional da história. Sua atuação acompanha o medo, o cansaço e a necessidade de preservar algum vínculo com outras pessoas. Mesmo nas passagens mais dolorosas, ele mantém particularidades que tornam Slahi reconhecível. Um sorriso cauteloso ou uma resposta bem-humorada dizem muito sobre alguém que ainda procura participar da conversa.
Macdonald intercala o trabalho dos advogados com lembranças do cativeiro. A escolha ajuda a dar dimensão humana aos relatos examinados nos escritórios, embora algumas mudanças interrompam diálogos que mereciam durar mais. As cenas de violência exigem estômago, mas a atuação de Rahim sustenta a atenção no homem submetido àquelas condições.
“O Mauritano” tem menos força quando comprime as dúvidas dos personagens para fazer a investigação avançar. Ainda assim, o encontro entre Rahim e Foster dá consistência à história. Ele precisa decidir quanto consegue revelar. Ela precisa transformar o que ouve em argumentos capazes de chegar à Justiça. Entre os dois, permanecem a vigilância, os documentos censurados e uma prisão que continua enquanto a defesa tenta obter respostas.

