Não é exatamente original pensar que um décimo do que se negocia numa única tarde na Bolsa de Nova York é o bastante para alimentar comunidades inteiras do Zimbábue por meses, talvez por um ano. Longe de qualquer determinismo sociopolítico ou geográfico, porém, há quem nunca chegue a ser capaz de tolerar pela vida afora todas as vergonhas que a privação traz, ainda que esse ímpeto por reaver o que deveria ter sido nosso desde sempre só aflore mesmo quando a oportunidade atira-se-nos à frente com tudo. Uma das conclusões que se pode elaborar ao termo dos 104 minutos de “Dinheiro Fácil” é que viver é mesmo uma loteria, cheia de riscos, leis injustas e um grande prêmio a quem ousa. Craig Gillespie joga luz sobre mais um dos tantos episódios obscuros que cercam o mercado especulativo americano, desencadeando a avalanche de bem-humoradas análises sobre antidemocráticos movimentos para garantir perenes desigualdades operando no “sistema”. Também por isso elas jamais perdem sua força.
Wall Street sempre vence
Há milhares de empresas como a GameStop nos Estados Unidos, e decerto milhões de pessoas feito Keith Gill, o Gato Feroz. Investidores como ele procuram meios razoavelmente seguros de engordar o porquinho, mas às vezes topam dar um passo maior que a perna, e aí começa um daqueles fenômenos tão curiosos quanto questionáveis, bem ao gosto do vaivém da maré financeira. Ardiloso, Gill faz o feitiço virar contra o feiticeiro ao mobilizar os pequenos poupadores que conhece pelo Reddit a adquirir ações da companhia, inflando artificialmente seu valor. Baseado em “A Rede Antissocial” (2021), o livro-reportagem de Ben Mezrich, o roteiro de Rebecca Angelo e Lauren Schuker Blum elucida o que há por trás das estratégias do Gato Feroz e da legião de revoltosos que arregimenta, todos em busca do quinhão que lhes cabe. Misturando histrionismo e momentos de introspecção, Paul Dano e Seth Rogen contornam o anticapitalismo de manual, fazendo de “Dinheiro Fácil” o registro de uma guerra cujos vencedores serão os de sempre.

