Em 1838, na Alemanha, um jovem corretor imobiliário viaja até a Transilvânia para fechar um negócio que promete melhorar sua vida financeira. Thomas Hutter (Nicholas Hoult) acaba de se casar com Ellen (Lily-Rose Depp) e deseja oferecer à esposa uma vida confortável. Ambicioso e disposto a conquistar a confiança do patrão, ele aceita negociar a compra de uma propriedade com o misterioso conde Orlok (Bill Skarsgård), um aristocrata que vive isolado nas montanhas. O que parecia uma boa oportunidade profissional acaba colocando o casal diante de uma criatura que alimenta uma antiga obsessão pela jovem. Em “Nosferatu” (2024), Robert Eggers recupera um dos vampiros mais conhecidos do cinema e transforma sua chegada à cidade de Wisborg em uma história perturbadora de desejo, superstição e morte.
Ellen não gosta da ideia de ficar longe do marido. Desde muito jovem, ela sofre com episódios estranhos, pesadelos e uma ligação inexplicável com uma presença que parece conhecê-la intimamente. Thomas, porém, considera seus receios fruto de uma sensibilidade excessiva. Convencido de que precisa garantir seu lugar na empresa, deixa a esposa aos cuidados dos amigos Anna (Emma Corrin) e Friedrich Harding (Aaron Taylor-Johnson) e parte para uma viagem que deveria durar apenas o tempo necessário para resolver a negociação.
Uma viagem que deveria garantir o futuro do casal
Durante o percurso até a Transilvânia, Thomas percebe que os moradores da região demonstram verdadeiro pavor ao ouvir o nome de Orlok. Ninguém parece disposto a falar abertamente sobre o conde, e as recomendações para que abandone a viagem são acompanhadas por crenças religiosas e antigas superstições. O corretor prefere ignorar os avisos. Afinal, atravessar metade da Europa para voltar sem um contrato assinado dificilmente renderia uma promoção.
Quando chega ao castelo, entretanto, sua confiança começa a desaparecer. Orlok possui uma aparência cadavérica, hábitos perturbadores e uma maneira de falar que torna qualquer conversa desagradável. O conde deseja comprar uma residência em Wisborg, onde Thomas vive com Ellen, e demonstra um interesse suspeito pela vida pessoal do visitante. O jovem tenta manter a postura profissional, embora os acontecimentos dentro daquela propriedade tornem cada vez mais difícil acreditar que está lidando apenas com um aristocrata excêntrico.
Bill Skarsgård interpreta Orlok sem recorrer à imagem elegante e sedutora que muitos filmes associaram aos vampiros. Sua criatura tem um corpo deteriorado, uma voz grave e uma presença repulsiva. Eggers também demora a revelar completamente sua aparência, utilizando sombras, respiração e movimentos para acentuar o desconforto. O resultado é um personagem que desperta medo mesmo quando permanece parcialmente escondido.
A ligação misteriosa entre Ellen e Orlok
Enquanto Thomas enfrenta situações assustadoras no castelo, Ellen começa a sofrer episódios cada vez mais intensos em Wisborg. Seus pesadelos comprometem o sono, o comportamento e a convivência com os Harding. Friedrich, homem interessado em preservar a tranquilidade da família, demonstra pouca paciência com manifestações que considera incompatíveis com uma mulher saudável. Anna procura acolher a amiga, mas também desconhece a origem de seu sofrimento.
A jovem guarda uma história anterior ao casamento. Durante a adolescência, em um período marcado pela solidão, Ellen estabeleceu contato com uma presença sobrenatural que passou a exercer enorme influência sobre ela. Orlok conhece essa ligação e pretende recuperá-la, independentemente da vontade da mulher ou das consequências para as pessoas próximas.
Lily-Rose Depp entrega uma interpretação especialmente intensa. Sua personagem alterna medo, desejo, culpa e revolta, muitas vezes sem conseguir explicar aquilo que sente. As manifestações físicas exigem bastante da atriz, que assume movimentos corporais desconcertantes e expressões que tornam o sofrimento de Ellen bastante convincente. Há também algo dolorosamente humano em sua situação. Cercada por homens interessados em diagnosticar seu comportamento, ela enfrenta dificuldades para ser ouvida dentro da própria casa.
O vampiro chega à cidade de Wisborg
A obsessão de Orlok por Ellen coloca os habitantes de Wisborg em perigo. Decidido a abandonar a Transilvânia, o conde segue em direção à Alemanha, levando consigo uma ameaça que ultrapassa os limites da residência adquirida por Thomas.
A chegada da criatura coincide com uma sucessão de mortes e uma calamidade que assusta a população. Os moradores procuram explicações médicas para os acontecimentos, enquanto os sinais de uma presença sobrenatural se tornam cada vez mais difíceis de ignorar. A cidade, antes movimentada pela rotina de comerciantes e famílias, passa a conviver com o medo de uma doença que parece se espalhar sem controle.
Thomas também precisa lidar com as consequências de sua viagem. O jovem que deixou a esposa para conquistar estabilidade financeira retorna marcado por experiências que jamais imaginou enfrentar. Sua preocupação agora está concentrada em proteger Ellen, embora desconheça a verdadeira dimensão da ligação entre ela e o conde.
O professor Albin Eberhart von Franz (Willem Dafoe), estudioso de fenômenos ocultos, ganha importância quando os conhecimentos médicos convencionais se mostram insuficientes para explicar o estado da jovem. Sua disposição para investigar acontecimentos sobrenaturais contrasta com o comportamento de Friedrich, que insiste em procurar justificativas racionais mesmo diante de circunstâncias cada vez mais assustadoras.
Robert Eggers recupera o terror gótico
Diretor de “A Bruxa” e “O Farol”, Robert Eggers demonstra novamente seu interesse por personagens que vivem em sociedades profundamente influenciadas pela religião, pelas tradições e pelo desconhecido. Em “Nosferatu”, essas características aparecem na maneira pela qual os moradores interpretam doenças, comportamentos femininos e manifestações que escapam ao conhecimento científico disponível no século 19.
A fotografia de Jarin Blaschke privilegia ambientes escuros, ruas cobertas pela névoa e interiores iluminados por velas. O castelo de Orlok parece permanentemente abandonado, enquanto as casas de Wisborg oferecem uma sensação de segurança que desaparece conforme a ameaça se aproxima. A ambientação histórica recebe atenção minuciosa, especialmente nos figurinos, na arquitetura e nos costumes dos personagens.
O diretor também preserva o caráter desagradável de seu vampiro. Orlok é possessivo, violento e movido por um desejo que ultrapassa qualquer possibilidade de relacionamento humano. Sua ligação com Ellen apresenta uma dimensão sexual incômoda, associada ao medo, à vergonha e à dificuldade que a jovem encontra para falar abertamente sobre as próprias experiências.
Nicholas Hoult oferece um contraponto interessante à intensidade de Depp. Seu Thomas começa como um marido apaixonado e profissional ambicioso, interessado em proporcionar conforto à família, mas acaba envolvido em acontecimentos que expõem sua ingenuidade. Willem Dafoe, por sua vez, acrescenta certa excentricidade ao professor Von Franz, um homem que leva muito a sério conhecimentos considerados absurdos pelos demais.
“Nosferatu” preserva a essência do clássico expressionista lançado em 1922, mas encontra uma identidade própria ao dedicar atenção especial à experiência de Ellen. Eggers apresenta uma mulher cercada por pessoas que desejam protegê-la, embora poucas estejam preparadas para compreender aquilo que ela enfrenta. Enquanto Orlok se aproxima e a cidade acumula vítimas, a jovem percebe que sua ligação com o vampiro poderá comprometer tudo o que construiu ao lado do marido.

