Robert McCall precisa aceitar ajuda, e talvez seja essa a tarefa mais difícil que Antoine Fuqua lhe reserva em “O Protetor: Capítulo Final” (2023). Depois de uma operação sangrenta na Sicília, um ferimento interrompe a marcha do homem acostumado a entrar sozinho, resolver tudo e desaparecer. Encontrado por um policial, ele recebe os cuidados de um médico numa cidade do sul da Itália, onde a recuperação lhe impõe uma convivência para a qual parece menos preparado do que para matar. Denzel Washington dá interesse a essa demora. Há alguma desconfiança na maneira como McCall acolhe a gentileza, como se receber alguma coisa sem precisar pagar por ela fosse uma espécie de armadilha.
O policial Gio Bonucci, de Eugenio Mastrandrea, e o médico Enzo Arisio, interpretado por Remo Girone, oferecem ao visitante uma possibilidade de pertencer àquele lugar antes de saberem exatamente quem ele é. Fuqua concede espaço a essa aproximação. O estrangeiro caminha, observa, aprende a reconhecer os rostos que se repetem, e Washington vai soltando o corpo e o sorriso sem apagar a vigilância. Sua presença ocupa a tela com uma facilidade que permite ao filme passar alguns minutos quase sem conflito aparente. Para um personagem cuja utilidade costuma ser medida pelo número de adversários abatidos, conseguir permanecer sentado entre outras pessoas já representa um avanço considerável.
Essa disposição para acompanhar o ator tem uma história. “O Protetor: Capítulo Final” é o quinto longa da parceria entre Washington e Fuqua, iniciada em “Dia de Treinamento” (2001). Naquele filme, a simpatia do astro servia a um policial que fazia da intimidade uma forma de domínio; aqui, ajuda a tornar aceitável a companhia de um executor que procura alguma paz. A confiança construída entre os dois aparece sobretudo nos intervalos. Fuqua sabe quanto pode esperar por uma reação, e Washington sabe quanto de ameaça cabe num rosto que ainda parece cordial. Mesmo quando o roteiro de Richard Wenk toma um caminho previsível, o ator conserva a atenção sobre o que McCall fará com o tempo que lhe resta.
A Camorra invade a rotina de McCall
A cidade, naturalmente, tem seus donos clandestinos. A Camorra cobra, intimida e invade a vida dos moradores, submetendo pequenos comerciantes e famílias a uma autoridade que dispensa qualquer explicação. A violência chega aos poucos ao cotidiano que McCall começava a apreciar. A escolha funciona porque a afeição pelos habitantes precede o confronto. Quando o visitante interfere, há rostos conhecidos entre os ameaçados, e o gesto ganha um peso que uma apresentação apressada das vítimas não conseguiria produzir. Mas o filme também facilita bastante sua própria argumentação. Os criminosos acumulam brutalidades com tamanho empenho que quase recebem do roteiro a incumbência de tornar prazeroso tudo o que lhes acontecerá.
É um limite antigo desse tipo de fantasia, e Fuqua não demonstra vontade de enfrentá-lo. A crueldade dos adversários autoriza a crueldade do herói, enquanto a diferença entre ambos permanece assegurada pela escolha de quem merece proteção. Ainda assim, há momentos em que a satisfação da vingança se torna incômoda. McCall não apenas neutraliza uma ameaça. Ele administra o medo, prolonga a espera e parece conhecer muito bem o prazer de manter alguém à sua mercê. Washington deixa essa zona sombria aparecer sem convertê-la numa explicação psicológica. O homem afável dos passeios continua sendo o mesmo que calcula a dor dos outros.
O reencontro com Dakota Fanning
Dakota Fanning participa dessa tentativa de aproximar o presente de McCall de uma vida que ele não consegue abandonar. Sua Emma Collins, agente da CIA, acompanha uma investigação que acaba cruzando o caminho do protagonista. O reencontro entre os atores, dezenove anos depois de “Chamas da Vingança” (2004), acrescenta uma lembrança afetiva às cenas dos dois, embora o novo filme não dependa dela para ser compreendido. Fanning já não ocupa o lugar da criança a ser resgatada. Há firmeza nas perguntas de Emma e uma resistência à autoridade informal do interlocutor, mas o roteiro lhe oferece pouco espaço para transformar essa disposição numa personagem de maior espessura. O prazer de vê-los juntos é maior do que a participação efetiva dela na história.
Também falta aos chefes mafiosos uma presença capaz de disputar a cena com Washington. O perigo que representam para a população é evidente; diante de McCall, porém, parecem condenados antes de compreenderem a situação. Daí a curiosa distribuição de forças do filme. A recuperação do protagonista desperta mais incerteza do que suas investidas contra os inimigos. É mais difícil saber se ele conseguirá receber o afeto de alguém do que imaginar quem sairá vivo de uma sala quando sua expressão mudar.
Fuqua compensa parte dessa desigualdade fazendo a violência interromper uma rotina que já começava a adquirir valor. O terceiro “O Protetor” encontra seus melhores momentos quando permite que McCall tenha alguma coisa a perder além da própria vida. Washington sustenta essa pequena transformação com uma atenção que sobrevive aos excessos do espetáculo. Depois dos confrontos, quando a cidade volta a reunir seus moradores, ele pode finalmente ocupar um lugar entre eles. Por alguns instantes, ninguém precisa de seus serviços.

