Discover

Os habitantes de Kahndaq têm boas razões para desconfiar de uma equipe de heróis que só aparece quando alguém começa a enfrentar seus ocupantes. Essa inconveniência dá a “Adão Negro” um conflito mais promissor do que as disputas de força que Jaume Collet-Serra distribui pela tela. A Sociedade da Justiça chega para conter Teth-Adam, recém-libertado de um aprisionamento milenar, e encontra uma população pouco disposta a agradecer. Até então, os homens armados da Intergangue circulavam com bastante liberdade. O zelo dos visitantes, compreensivelmente, parece atrasado.

Dwayne Johnson desenvolveu o projeto durante anos e defendeu a inclusão da Sociedade da Justiça como parte da expansão cinematográfica da DC. A ambição explica algo da superlotação do filme, obrigado a apresentar seu protagonista e, ao mesmo tempo, acomodar uma equipe cujos integrantes também pedem passado, relações e espaço para demonstrar poderes. A reunião foi uma decisão deliberada de produção, e seus custos aparecem na dificuldade de permanecer com um personagem antes que outro exija atenção.

O roteiro encontra uma entrada razoavelmente clara por meio de Adrianna Tomaz. A personagem de Sarah Shahi procura uma antiga coroa, desperta Adam e acaba envolvida numa disputa que ameaça também seu filho, Amon. Ela conhece a história de Kahndaq, tem interesses próprios e consegue formular a pergunta que os superpoderosos prefeririam ignorar. Quem lhes concedeu autoridade para decidir quais violências aquele povo deve suportar? Shahi sustenta a cobrança com firmeza, embora o filme logo se ocupe em deslocar sua personagem para o lugar mais previsível de mãe preocupada.

Adam e as lições de Amon

Adam não demonstra grande interesse em justificar seus métodos. Johnson restringe o sorriso que costuma facilitar sua comunicação com o público e se apoia na imobilidade do rosto, no tamanho do corpo, no desconcerto de alguém pouco impressionado com os costumes modernos. A escolha produz momentos engraçados, sobretudo quando Amon tenta ensinar-lhe a apresentação adequada de um super-herói. O menino conhece o repertório, quer uma frase marcante, uma atitude reconhecível. Seu candidato prefere resolver o problema antes de terminar o ensaio.

O humor ajuda porque a invulnerabilidade logo começa a cobrar seu preço. Soldados e armamentos dificilmente oferecem resistência, e uma luta que já nasce decidida precisa encontrar interesse na maneira como será encerrada. Collet-Serra lança mão de desacelerações, mudanças de perspectiva e destruição em grande escala, recursos que divertem por algum tempo, mas tornam semelhantes encontros que deveriam crescer em intensidade. A quantidade de concreto derrubado acaba substituindo a dificuldade do confronto.

Pierce Brosnan na Sociedade da Justiça

É entre os membros da Sociedade da Justiça que surge a presença mais agradável. Pierce Brosnan dá a Kent Nelson, o Senhor Destino, uma serenidade que não depende de demonstrar superioridade a cada fala. Sua amizade com Carter Hall, o Gavião Negro de Aldis Hodge, sugere anos de convivência que o filme não precisa explicar por inteiro. Os dois discordam como pessoas habituadas a permanecer juntas depois de uma discussão. Essa familiaridade faz falta aos novatos Ciclone e Esmaga-Átomo, interpretados por Quintessa Swindell e Noah Centineo, frequentemente reduzidos ao poder que precisam exibir.

Há também uma história de perda por trás da brutalidade de Adam, e a maneira como ela corrige a versão heroica conhecida por Kahndaq poderia dar ao personagem uma dimensão menos obediente ao espetáculo. Johnson responde melhor quando a obstinação deixa entrever esse sofrimento. O filme, entretanto, quer avançar, apresentar outra ameaça, convocar mais uma batalha. A chegada de Sabbac oferece um inimigo contra o qual todos podem se entender e facilita demais a solução do desacordo inicial.

Com isso, a pergunta dos moradores vai perdendo espaço. Era ela que tornava desconfortável a presença dos heróis estrangeiros e impedia que a violência de Adam fosse julgada sem levar em conta a ocupação. Ao conceder a todos um adversário suficientemente monstruoso, “Adão Negro” se livra de uma discussão que poderia continuar depois da luta. Brosnan ainda consegue prender a atenção quando retira o capacete. O filme ganharia se tivesse mais paciência para ficar com ele.


Filme: Adão Negro
Diretor: Jaume Collet-Serra
Ano: 2022
Gênero: Ação/Aventura/Fantasia
Avaliação: 3/5 1 1
Leia Também