Discover

Na Londres vitoriana, um jovem rico e inexperiente descobre que pode conservar a juventude enquanto um retrato envelhece em seu lugar. É a partir desse desejo, alimentado por vaidade e pelo fascínio por uma vida sem freios, que “O Retrato de Dorian Gray”, lançado em 2009 e dirigido por Oliver Parker, acompanha a transformação de Dorian Gray (Ben Barnes). Cercado por dinheiro, beleza e pelas provocações de Lord Henry Wotton (Colin Firth), ele passa a viver sem demonstrar no próprio rosto as consequências de suas escolhas. O problema fica escondido em um quarto de sua casa.

Dorian Gray (Ben Barnes) chega à capital inglesa ainda bastante ingênuo diante dos códigos da aristocracia. Bonito, rico e educado, ele chama a atenção do pintor Basil Hallward (Ben Chaplin), que decide transformá-lo em modelo de um retrato. Durante esse período, Dorian conhece Lord Henry Wotton (Colin Firth), um aristocrata sofisticado, cínico e muito disposto a oferecer opiniões sobre prazer, juventude e liberdade.

Henry percebe a insegurança do rapaz e passa a instigá-lo. Para ele, envelhecer significa perder uma das maiores vantagens disponíveis a Dorian. O jovem absorve aquela ideia com intensidade. Quando observa o retrato terminado por Basil, deseja permanecer para sempre com a aparência registrada na tela, mesmo que a pintura envelheça em seu lugar.

O desejo se realiza de maneira sobrenatural. O rosto de Dorian continua jovem, enquanto o quadro passa a guardar sinais que deveriam surgir em seu corpo. A princípio, a situação parece um presente extraordinário. Aos poucos, porém, aquilo que permanece escondido na pintura também oferece ao rapaz algo bastante perigoso. Ele pode cometer excessos sem carregar no rosto o desgaste que normalmente acompanharia tantos anos de vida.

Henry abre as portas da cidade

Lord Henry se torna uma influência decisiva porque apresenta a Dorian uma Londres muito diferente daquela encontrada pelo jovem quando chegou à cidade. Festas, bebida, sexo e ambientes clandestinos entram em sua rotina. Colin Firth interpreta Henry com uma mistura eficiente de charme e crueldade. Ele gosta de provocar Dorian, embora não precise pagar o mesmo preço pelas ideias que espalha.

Dorian passa a experimentar essa liberdade com entusiasmo. Ben Barnes dá ao personagem uma transformação gradual. O rapaz tímido dos primeiros momentos cede espaço a um homem muito mais seguro de sua aparência e de sua capacidade de escapar do julgamento alheio. Seu rosto permanece igual, enquanto as pessoas ao redor envelhecem e percebem a passagem dos anos.

A vantagem, porém, depende de uma condição. Ninguém pode ver o quadro. Dorian o mantém trancado dentro de casa e acompanha sozinho as mudanças na pintura. Quanto mais sua vida se distancia do jovem retratado por Basil, mais assustadora se torna aquela figura escondida. O segredo ganha peso porque possui endereço, porta e chave. Basta alguém entrar no cômodo errado para destruir a imagem que Dorian apresenta ao restante de Londres.

Sybil expõe outra face de Dorian

Antes de mergulhar por completo nesse universo, Dorian se envolve com Sybil Vane (Rachel Hurd-Wood), uma jovem atriz por quem se apaixona. A relação oferece ao personagem uma possibilidade de afeto distante das provocações de Henry. Também revela quanto sua percepção sobre amor já começa a ser contaminada pela busca de prazer e perfeição.

Sybil ocupa um lugar importante porque aproxima Dorian de sentimentos que não podem ser tratados apenas como diversão. Ele deseja aquela mulher, idealiza seu talento e enxerga nela uma espécie de pureza que contrasta com os ambientes frequentados ao lado de Henry. Quando a relação deixa de corresponder à fantasia construída por ele, Dorian reage com uma frieza que surpreende até quem ainda enxergava bondade no rapaz.

O retrato passa então a registrar mudanças mais perturbadoras. Seu funcionamento é simples e eficiente dentro da história. Dorian continua sendo admirado pela juventude, enquanto a tela assume marcas que denunciam sua degradação. Ele não precisa explicar aos outros por que parece tão bem depois de tantos anos. Precisa apenas garantir que ninguém descubra onde guarda sua verdadeira aparência.

O tempo passa para todos

Os anos avançam e Dorian permanece praticamente igual. Esse é um dos aspectos mais interessantes de “O Retrato de Dorian Gray”. Pessoas que conviveram com ele mudam, envelhecem e carregam experiências no corpo. Dorian continua com a mesma face jovem que chamou a atenção de Basil. O privilégio começa a parecer estranho até para aqueles que o conhecem há muito tempo.

A situação fica ainda mais delicada quando Emily Wotton (Rebecca Hall), filha de Lord Henry, entra na vida de Dorian. Ela representa uma geração que cresceu enquanto ele permaneceu congelado na juventude. A aproximação entre os dois também atinge Henry de maneira pessoal. O homem que durante anos incentivou Dorian a desprezar limites precisa olhar para as consequências de suas próprias ideias quando elas chegam perto demais de sua família.

Rebecca Hall traz uma presença mais serena ao filme. Emily não pertence ao mesmo estágio de inocência de Sybil, mas oferece a Dorian uma relação capaz de despertar sentimentos que ele ainda tenta preservar. O problema é que estabelecer intimidade significa permitir que alguém se aproxime de sua vida privada. E Dorian possui um segredo impossível de explicar sem revelar tudo aquilo que passou décadas escondendo.

O quadro cobra seu espaço

Oliver Parker usa a fantasia para transformar a decadência do protagonista em algo físico. O retrato deixa de ser apenas uma pintura e passa a funcionar como registro da vida que Dorian tenta esconder. Quanto mais ele protege sua aparência, mais depende daquele cômodo fechado. Seu maior privilégio também se transforma em sua maior ameaça.

Ben Barnes sustenta o personagem entre sedução, arrogância e medo. Dorian gosta dos benefícios conquistados, mas sabe que existe dentro de casa uma prova que contradiz cada elogio recebido por sua juventude. Colin Firth, por sua vez, torna Lord Henry um dos personagens mais interessantes do filme. Ele é divertido quando provoca, irritante quando trata pessoas como experiências e especialmente incômodo quando percebe que suas frases espirituosas podem produzir consequências fora dos salões.

“O Retrato de Dorian Gray” adapta o romance de Oscar Wilde com maior interesse pelo suspense, pela sensualidade e pelos elementos sombrios da história. Algumas sutilezas do livro dão lugar a uma abordagem mais acessível, mas o centro permanece reconhecível. Dorian recebe aquilo que desejou e descobre que conservar um rosto jovem não significa conservar a pessoa que existia por trás dele. Enquanto Londres continua envelhecendo ao seu redor, ele precisa manter trancado o único retrato capaz de revelar quanto tempo realmente passou.


Filme: O Retrato de Dorian Gray
Diretor: Oliver Parker
Ano: 2009
Gênero: Drama/Fantasia/Mistério/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

Leia Também