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Em “Cuckoo: O Medo Chama”, lançado em 2024, uma adolescente americana muda-se para os Alpes alemães e passa a investigar acontecimentos assustadores ligados à própria família. Gretchen (Hunter Schafer) tem 17 anos e ainda sofre com a morte da mãe quando precisa deixar os Estados Unidos. Sem participar verdadeiramente da escolha, ela segue para uma região isolada dos Alpes alemães, onde seu pai, Luis (Marton Csokas), pretende trabalhar na construção de um novo hotel. A mudança também inclui Beth (Jessica Henwick), atual esposa de Luis, e Alma (Mila Lieu), filha pequena do casal.

A recepção pouco calorosa de Gretchen diante da nova vida não nasce de mera rebeldia adolescente. Ela perdeu a mãe, deixou os amigos e agora precisa conviver com um núcleo familiar no qual se sente quase uma visitante. Luis deseja que todos aceitem aquela oportunidade profissional, mas dedica grande parte da atenção a Alma. A menina não fala e depende de cuidados constantes, algo que aumenta a sensação de abandono da irmã mais velha.

A família passa a viver em um resort administrado pelo Sr. König (Dan Stevens), chefe de Luis. Educado, sorridente e sempre disposto a oferecer alguma facilidade, ele provoca desconforto desde o primeiro contato. Seu interesse por Alma parece desproporcional, embora os demais adultos não demonstrem preocupação. Gretchen percebe a estranheza porque já chegou ao local desconfiada de tudo e sem qualquer vontade de pertencer àquela comunidade.

O emprego que prende Gretchen

König oferece a Gretchen um trabalho na recepção do resort. A adolescente aceita porque precisa de dinheiro e deseja conquistar alguma independência. Seu principal plano é abandonar os Alpes e recuperar parte da vida que deixou para trás. O emprego, porém, também a coloca dentro do espaço administrado pelo homem que mais desperta suas suspeitas.

Durante os turnos, Gretchen observa hóspedes passando mal e nota comportamentos difíceis de explicar. Ruídos agudos atravessam o ambiente, provocam desorientação e parecem interferir na passagem do tempo. A jovem também percebe uma presença feminina assustadora rondando o resort e as estradas próximas. O lugar, vendido como um retiro tranquilo entre montanhas, começa a parecer uma armadilha cercada por árvores e silêncio.

Tilman Singer, responsável pela direção e pelo roteiro, trabalha o medo por meio da repetição de sons, movimentos interrompidos e informações incompletas. Quando Gretchen ouve o chamado perturbador, sua percepção falha e determinadas ações parecem acontecer novamente. O recurso acompanha aquilo que a personagem experimenta, deixando o público tão desnorteado quanto ela. O risco cresce porque ninguém ao redor oferece uma explicação confiável.

Gretchen tenta avisar o pai, mas Luis recebe suas suspeitas com a impaciência de quem acredita estar lidando com uma filha inconformada. Essa distância entre os dois favorece König, que preserva autoridade sobre a casa, o trabalho e os deslocamentos da família. Quanto mais a adolescente insiste, menos crédito recebe. O resultado é cruelmente familiar para qualquer jovem que já tenha escutado de um adulto que estava apenas “imaginando coisas”.

Uma saída cercada por perigo

Ed (Àstrid Bergès-Frisbey), uma hóspede do resort, oferece a Gretchen companhia e a possibilidade de escapar. A aproximação entre as duas traz um raro intervalo de afeto para uma personagem que passou boa parte da história sendo tratada como problema doméstico. Sair com Ed permitiria à jovem deixar König, o emprego e as tensões familiares para trás.

O plano esbarra nos fenômenos que dominam a região. Os sons voltam, a figura feminina se aproxima e Gretchen percebe que atravessar a estrada pode ser tão perigoso quanto permanecer no resort. A tentativa também cobra um preço físico, restringe seus movimentos e aumenta sua dependência dos adultos. Singer transforma uma fuga relativamente simples em uma sequência sufocante, sem precisar explicar naquele instante tudo o que persegue a protagonista.

Henry (Jan Bluthardt) surge ligado aos acontecimentos estranhos e demonstra saber mais do que revela. Ele oferece partes de uma investigação sobre a mulher que ronda o local, embora suas intenções permaneçam sob suspeita. Gretchen aceita ouvi-lo porque perdeu a confiança no pai e não possui muitas alternativas. Cada informação recebida abre uma nova parte do mistério, mas também aproxima a adolescente de pessoas interessadas em usar sua revolta.

“Cuckoo: O Medo Chama” cresce quando coloca Gretchen entre adultos que oferecem ajuda sob determinadas condições. König fornece trabalho e moradia, Henry promete informações e Luis exige adaptação em nome da estabilidade familiar. Nenhum deles entrega liberdade completa. Hunter Schafer dá à personagem uma irritação convincente, misturada a medo, luto e coragem. Ela não interpreta Gretchen como uma heroína pronta, mas como uma jovem obrigada a agir porque permanecer parada deixou de ser seguro.

Alma passa a correr perigo

Os episódios sofridos por Alma aprofundam o vínculo entre os acontecimentos do resort e a família. A menina reage aos sons de maneira intensa, enquanto König acompanha seu estado com atenção inquietante. Gretchen precisa decidir quanto está disposta a arriscar por uma irmã da qual sentia ciúme poucas horas antes. Essa mudança acontece aos poucos, sustentada por gestos de cuidado e pelo reconhecimento de que Alma também vive cercada por escolhas feitas pelos adultos.

Mila Lieu interpreta a menina por meio de expressões e movimentos, sem depender de falas. Jessica Henwick oferece a Beth uma postura protetora, embora a personagem permaneça afastada de várias decisões importantes. Marton Csokas faz de Luis um pai absorvido pelo próprio projeto, incapaz de perceber a dimensão do perigo dentro de casa. Essa fragilidade familiar permite que König exerça influência por mais tempo.

Dan Stevens se diverte com a educação excessiva do Sr. König. O personagem fala baixo, sorri e recebe visitantes com uma elegância que beira o absurdo. Há algo quase engraçado em sua formalidade, principalmente porque Gretchen jamais parece convencida pelo charme do anfitrião. A leveza dura pouco, pois cada favor oferecido também reforça o controle dele sobre quem entra, sai ou permanece no resort.

Um terror estranho e imperfeito

A investigação de Gretchen revela que os acontecimentos possuem relação com o corpo, a reprodução e certos comportamentos observados na natureza. Singer aposta em uma explicação excêntrica, coerente com o próprio título, mas algumas regras ficam menos convincentes quando começam a ganhar contornos definidos. O mistério possui mais força enquanto ruídos, crises e perseguições permanecem ligados à experiência fragmentada da protagonista.

Ainda assim, “Cuckoo: O Medo Chama” preserva personalidade. O longa combina terror corporal, drama familiar e suspense sem transformar Gretchen em simples vítima. Ela corre, erra, investiga e utiliza os poucos recursos disponíveis para proteger a si mesma e a irmã. Sua faca e seus fones de ouvido deixam de ser acessórios comuns quando passam a oferecer alguma vantagem contra uma ameaça baseada no som.

A atuação de Hunter Schafer segura até os trechos mais confusos. Seu rosto expressa irritação antes do medo, escolha adequada para uma jovem que já estava ferida emocionalmente antes de qualquer criatura surgir. Gretchen desejava apenas deixar os Alpes, mas o perigo envolvendo Alma muda o custo dessa saída. Escapar sozinha permanece possível por algum tempo. Partir sabendo que a irmã ficará nas mãos de König já não oferece a liberdade que ela buscava.


Filme: Cuckoo
Diretor: Tilman Singer
Ano: 2024
Gênero: Mistério/Suspense/Terror
Avaliação: 3/5 1 1
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