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O amor está sempre à espreita, como uma grande ameaça. Apaixonar-se pode ser a perdição irreparável de alguém, especialmente se o sentimento avassalador de descobrir-se tomado pela vontade de estar além da própria pele vem demasiado cedo, mas viver nunca foi um problema matemático, cuja resposta não encerra quaisquer outras possibilidades. Precisa-se experimentar, arriscar, flertar com o perigo muitas vezes para, talvez, começar a entender que a vida tem suas próprias razões. É o que se depreende de “Um Dia”, comédia romântica sobre um anticasal e suas idas e vindas ao longo de vinte anos numa relação bastante peculiar, sem dúvida, mas verdadeira. Tarimbada no assunto, a diretora Lone Scherfig expõe os prazeres e os pesares de um homem e uma mulher sem muito em comum, mas ligados por uma força invisível e poderosa, dispostos a ignorar as circunstâncias e os respectivos parceiros para continuar seu caso. Até a separação abrupta e definitiva.

O tempo passa, o amor fica

Quinze de julho de 1988 é uma data marcante para Emma Morley e Dexter Mayhew. Eles se conhecem na Universidade de Edimburgo, tornam-se amigos e aos poucos vão percebendo que são atraídos pelas intermináveis diferenças que os regem. Scherfig esmera-se na construção dos personagens, mostrando Emma como uma nerd típica, a começar pelos óculos que ela está usando no início, estudiosa e circunspecta, ao passo que Dexter é um fanfarrão mimado e inconsequente que pode seduzir qualquer uma. David Nicholls adapta seu best-seller homônimo, de 2009, frisando também o distanciamento socioeconômico dos protagonistas, momento em que o filme envereda para um comentário perspicaz a respeito das supostas crueldades do destino, que Emma supera, enquanto Dexter parece resignar-se com uma carreira de produtor de televisão que degringola para uma humilhante busca por audiência. Anne Hathaway e Jim Sturgess não precisam de transformações estéticas mirabolantes para encarnar Emma e Dexter em diferentes fases, concentrando sua atuação em olhares e gestos, tímidos ou largos. O desfecho preguiçoso consegue ter sua beleza ao vislumbrar a ideia de um romance que sucumbe a um infortúnio, mas que vai continuar a existir nas melhores lembranças.


Filme: Um Dia
Diretor: Lone Scherfig
Ano: 2011
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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