O homem só pode ser feliz se tiver condições de buscar a felicidade. Segundo o postulado iluminista, todos temos o sagrado direito de correr mundo até realizarmos nossas aspirações, das mais básicas às que o restante da humanidade julga mero capricho, mera demonstração pueril de frustrações recalcadas pelo tempo, justificando novos fracassos e protelando o sucesso — e a própria felicidade. Uma tristeza sufocante obriga Joe Warr a fugir da rotina, levando consigo o sentimento de que perdeu tempo demais a querer fortuna e glória. Essa decisão aparentemente furiosa guarda um propósito bastante razoável, e assim caminha “Os Garotos Estão de Volta”, um road movie que faz questão de dispensar todos os rótulos. Scott Hicks fala de vida e morte fixando-se nas reações desesperadas de Joe, ávido por seguir adiante depois de uma perda sabendo que vai dar de cara com desafios quase inexpugnáveis. O maior deles pode ser a salvação de que tanto precisa.
Vivendo e aprendendo
A vida de Joe tem muito das lendárias partidas que decidem torneios de beisebol e basquete, espetáculos que ele vem acompanhando de perto ao longo da carreira. Há algum tempo, Joe trocou a Inglaterra pela Austrália pensando em oferecer uma vida mais serena para Katy, a esposa, e Artie, o filho do casal, mas seu plano começa a fazer água quando descobrem que ela tem dois tumores no fígado e não há mais muita coisa a ser feita. O roteiro de Allan Cubitt aproveita muitas das passagens do livro de memórias do jornalista esportivo britânico Simon Carr, de 2001, sublinhando trechos assumidamente melodramáticos, que vai justapondo a cenas bem mais aceleradas, ocasiões em que pai e filho são obrigados a aceitar que não dispõem de outra alternativa que não seja tolerar a companhia um do outro. A reaproximação de Joe com Harry, o filho de um relacionamento anterior, é ainda mais cheia de contradições na medida em que o força a se ver de novo num momento de fragilidade, mas agraciado pela chance de evitar aqueles erros. Clive Owen, Nicholas McAnulty e George MacKay compreendem as muitas guinadas emocionais dos personagens, e ainda que resvalem na pieguice em dados pontos, salientam a intenção original, de vínculos familiares como a possibilidade última de recomeços. E neles algum senso de plenitude.

