Ainda na infância, o mundo vai se nos revelando um lugar surpreendentemente hostil, onde somos forçados a medir cada palavra e estudar todo e qualquer gesto, sob pena de arcar com consequências pesadas demais para nossos ombros estreitos, sobre os quais flutuam uma cabecinha deveras sonhadora e perdida. Depois de um tempo que passa voando — e de que lamentaremos não ter usufruído de todo — viramos adolescentes sensíveis e taciturnos, uns mais, outros menos, deslocados, em choque com nossas descobertas e traumas. Uma das grandes maravilhas de viver é sublimar padrões, explorar possibilidades nem sempre harmoniosas entre si, mas que se complementam e dão em algo novo, exercício que Juliette Lamare-Tremblay faz a muito custo. A personagem-título do filme de Anne Émond até queria ser magra, popular e rica, mas acha outros encantos em si, e então fica mais fácil a travessia por seu melancólico deserto interior. Émond define Juliette com uma coleção de estereótipos, mas livra-se deles na hora certa, deixando sobressair uma história emocionante sobre autoaceitação e coragem, sem exageros.
A que será que se destina?
Aos catorze anos, Juliette é uma das melhores alunas da oitava série, mas a grama do vizinho parece sempre mais verde. O equilíbrio frente a cenários com os quais adultos muitas vezes lidam tão mal e a facilidade em adaptar-se às conjunturas infaustas e quase monstruosas da vida não valem grande coisa entre os colegas, dando-lhe a sensação de que está num limbo. Os desejos dessa garota precocemente amadurecida vêm à tona nas conversas intermináveis com Léane, a melhor amiga e confidente, e a diretora-roteirista recorre a esse expediente para falar de depressão, abusos físicos e psicológicos, autoestima e tolerância, sugerindo as reações de Juliette. Émond vai deixando claro, todavia, que a moça é dura na queda, ilude-se com a aspiração a um romance com Liam, o amigo do irmão vivido por Antoine DesRochers, mas se convence de que tem um futuro bem mais doce com a personagem de Léanne Désilets. Alexane Jamieson vai de um polo a outro, numa interpretação nuançada, mas fica um estranhamento no terceiro ato, quando sobrevém a resignação com o desdém da mãe. Ela queria o colo materno, mas tem que negar.

