Charles Ryder demora a perceber que seu grande caso de amor talvez seja com uma casa. Sebastian Flyte aparece primeiro, Julia vem depois, mas Brideshead já está lá, monumental e sedutora, oferecendo ao jovem de classe média tudo aquilo que ele não recebera da vida: beleza, tradição, dinheiro, sobrenome, uma família que, vista de fora, parece possuir até uma forma particular de desafiar o tempo. Julian Jarrold entende a atração e organiza “Brideshead: Desejo e Poder” em torno dela. O erro é que se apaixona um pouco demais por seu próprio cenário e nem sempre consegue mostrar o que existe de apodrecido por trás das paredes.
Na Oxford de 1925, Charles conhece Sebastian, um aristocrata extravagante que bebe demais, anda acompanhado do inseparável ursinho Aloysius e transforma o enfado numa arte. Ben Whishaw faz dele a criatura mais interessante do filme porque não tenta racionalizar suas contradições. Sebastian pode ser afetado, egoísta, engraçado e desesperadamente carente no intervalo de poucos minutos. Ele conduz Charles até Brideshead, e Matthew Goode assume então a expressão de quem entrou por engano num mundo ao qual gostaria de pertencer desde sempre, ainda que nunca tenha sabido de sua existência.
Evelyn Waugh publicou “Brideshead Revisited” em 1945, e a religião ocupa no romance uma posição muito mais intrincada que a de mero instrumento repressivo. Convertido ao catolicismo, Waugh concebeu uma história sobre a ação da graça num universo que se imaginava impermeável a ela, ao mesmo tempo em que transformava a decadência de uma família aristocrática numa elegia a um modo de vida prestes a desaparecer. A celebrada adaptação televisiva britânica de 1981 pôde avançar lentamente por essa matéria. Jarrold dispõe de pouco mais de duas horas e prefere deslocar o peso para o desejo, fazendo de Charles, Sebastian e Julia um triângulo mais explícito. Ganha urgência; perde ambiguidade.
Lady Marchmain e a fé dos Flyte
A diferença aparece com toda a nitidez quando Lady Marchmain entra em cena. Emma Thompson compõe uma matriarca cuja delicadeza não diminui em nada a capacidade de esmagar os filhos. Ela não necessita de escândalos, e talvez nem se considere autoritária. Tem fé. Esse detalhe torna tudo mais incômodo, porque Lady Marchmain acredita sinceramente estar salvando almas quando vigia Sebastian, interfere no amor de Julia ou examina Charles como alguém que entrou em sua casa trazendo uma doença. Para o rapaz, ateu e socialmente deslocado, o catolicismo dos Flyte é inicialmente mais uma extravagância daquela gente rica, até que descobre tratar-se da única muralha de Brideshead que dinheiro, charme e obstinação não lhe permitem atravessar.
Sebastian começa a beber com uma gravidade cada vez menos divertida. Charles tenta ajudá-lo, mas é justamente nesse ponto que a personagem de Goode revela sua zona de sombra. Ele ama o amigo? Deseja-o? Tem pena dele? Ou necessita dele porque Sebastian é a porta pela qual entrou naquele mundo? Jarrold não fecha a questão, felizmente, embora seja bem menos discreto ao aproximar Charles de Julia. Hayley Atwell dá à irmã de Sebastian uma segurança que vai se desfazendo quando o desejo esbarra na fé, e a viagem a Veneza, onde os irmãos encontram Lord Marchmain vivendo com a amante, serve para que o diretor exponha outra possibilidade de existência, aparentemente livre da rigidez de Lady Marchmain. Só aparentemente.
Michael Gambon sabe fazer desse patriarca exilado uma figura maior quanto menos se movimenta. Lord Marchmain fugiu da família, da religião e da própria Inglaterra, mas permanece ligado a todas as três. O mesmo ocorre com Julia, e até Sebastian, que tenta escapar com a ajuda do álcool e só consegue levar Brideshead consigo. Charles é o único que imagina poder entrar e sair daquele universo de acordo com a vontade, presunção compreensível num homem que se acostumou a enxergar a casa, seus moradores e sua história como objetos de uma mesma fascinação estética.
O desejo de Charles
É também aí que o filme deixa uma pergunta melhor que seu romance central. Charles torna-se pintor, ganha mundo, casa-se, reencontra Julia e continua a orbitar os Flyte como se houvesse alguma dívida nunca quitada. Matthew Goode não tem o magnetismo de Whishaw nem a autoridade gelada de Thompson, mas sua relativa opacidade serve ao personagem, um homem que passa anos confundindo aquilo que deseja com aquilo que acredita amar. Quando finalmente admite que sempre quis Brideshead, uma porção da história se reorganiza.
Jarrold apressa demais algumas travessias e torna o catolicismo de Waugh mais punitivo, menos misterioso, um ajuste que facilita o drama e empobrece seu último movimento. Ainda assim, o retorno de Charles à mansão durante a Segunda Guerra Mundial encontra uma imagem que justifica boa parte da viagem. Brideshead agora serve aos militares. O fausto permanece, mas a família se dispersou e o mundo que parecia eterno sucumbiu ao tempo. Na capela, diante de uma chama ainda acesa, Charles tem oportunidade de apagá-la. Para um homem que passou a juventude inteira tentando possuir tudo aquilo, o mais estranho é descobrir que talvez alguma coisa sempre tenha escapado de suas mãos.

