Bill Furlong passa os dias carregando carvão e, quando volta para casa, esfrega as mãos numa pia até a água escurecer. Tim Mielants insiste algumas vezes nesse gesto simples, quase doméstico, e não demora para que ele deixe de falar apenas da sujeira de um ofício. Em “Pequenas Coisas Como Estas”, há muita gente de mãos aparentemente limpas porque aprendeu a não tocar naquilo que acontece diante dos olhos. Bill não desfruta desse privilégio. Interpretado por Cillian Murphy com uma contenção que chega a ser dolorosa, ele é um sujeito comum a quem o acaso entrega uma informação que ninguém gostaria de possuir, e a partir daí cada novo silêncio passa a exigir-lhe uma espécie de consentimento.
A Irlanda é a de 1985, ainda submetida a uma influência da Igreja Católica que ia muito além da vida espiritual. Bill mora em New Ross, sustenta a mulher, Eileen, e cinco filhas com seu pequeno negócio e conhece gente bastante para saber que certas perguntas custam caro. Numa entrega ao convento local, ele vê uma jovem sendo levada para dentro contra a própria vontade. Depois percebe outras garotas, magras, assustadas, ocupadas em trabalhos cuja finalidade ninguém se preocupa em explicar. Mielants não arma um escândalo. Faz exatamente o contrário, deixando que a normalidade permaneça inteira por tempo suficiente para que o horror pareça ainda mais inconveniente.
Claire Keegan publicou em 2021 a breve narrativa que Enda Walsh adapta para o cinema, inspirada no ambiente das Lavanderias de Madalena, instituições administradas por ordens religiosas nas quais mulheres consideradas social ou moralmente inconvenientes eram confinadas, submetidas a trabalhos exaustivos e afastadas de seus filhos. Essas casas atravessaram boa parte da história moderna irlandesa e chegaram aos anos 1990, razão pela qual o filme tem o bom senso de não tratá-las como uma monstruosidade remota de algum século perdido. Em 1985, Bill podia cruzar a rua, comprar pão, entregar carvão, assistir às famílias preparando o Natal e passar diante de uma delas sem que a cidade aparentemente experimentasse contradição alguma.
O silêncio de New Ross
É justamente nesse ponto que “Pequenas Coisas Como Estas” ganha uma força que nenhum discurso inflamado conseguiria produzir. Bill começa a se lembrar da mãe, Sarah, uma jovem solteira que poderia ter tido destino semelhante não fosse a proteção de Mrs. Wilson, mulher abastada que permitiu que ela permanecesse em sua casa e criasse o menino. Michelle Fairley aparece nesses fragmentos de memória sem transformar Mrs. Wilson numa santa, e isso importa. A bondade decisiva que salvou aquela pequena família não exigiu heroísmo, apenas a recusa de uma crueldade que os outros haviam aprendido a considerar normal. A proximidade entre o passado de Bill e aquilo que presencia no convento retira dele a última desculpa disponível.
Eileen percebe a perturbação do marido, mas sua reação é pragmática. Há cinco meninas naquela casa, uma escola ligada às religiosas, contas por pagar, um negócio dependente da boa vontade de clientes. O filme não a converte numa mulher covarde. Eileen Walsh torna mais difícil o julgamento ao fazer da personagem alguém perfeitamente consciente do mecanismo social em que vive. Ela sabe que afrontar um poder quase absoluto pode trazer consequências para todos. Bill também sabe. É por isso que o conflito funciona: coragem, quando não há nada a perder, costuma ser apenas bravata.
Irmã Mary e a violência sem escândalo
A chegada de Bill ao depósito de carvão do convento numa manhã fria muda a temperatura do filme. Lá está Sarah, uma das internas, trancada e tremendo. Ele a conduz até a madre superiora e começa então uma das melhores sequências de Mielants, na qual Emily Watson praticamente não precisa levantar a voz. Irmã Mary oferece chá, bolo, cordialidade, uma explicação conveniente e dinheiro. A violência encontra sua forma mais eficiente quando já não necessita parecer violenta. Watson, premiada em Berlim por esse trabalho, compreende muito bem a perversidade de uma personagem que nunca se considera perversa; Irmã Mary age como representante de uma ordem que se julga tão natural quanto o inverno do lado de fora.
Murphy faz o movimento oposto. Bill vai encolhendo à medida que entende o tamanho do que descobriu, e o ator deixa quase tudo acontecer na face, nos olhos baixos, na demora de uma resposta, na respiração de quem gostaria de retornar à ignorância de poucos dias antes. Desde “Oppenheimer”, seria fácil oferecer-lhe outro homem devastado em escala monumental. Mielants reduz o universo. Aqui não existe bomba capaz de destruir cidades. Existe uma jovem atrás de uma porta e um homem que pode abri-la.
É pouco, e é tudo o que o filme precisa. “Pequenas Coisas Como Estas” não se propõe a explicar por inteiro as Lavanderias de Madalena nem a absolver retrospectivamente uma comunidade cuja sobrevivência dependia, em boa medida, de saber quando não ver. O que interessa é o instante em que Bill perde essa habilidade. Quando torna ao convento, já não está tentando descobrir o que acontece ali. Ele sabe. Resta decidir o que fará com esse conhecimento, e Mielants encerra sua história exatamente onde começaria outra, talvez muito mais difícil, quando uma pequena decisão deixa de ser pequena para quem finalmente a toma.

