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Robert De Niro passou boa parte da carreira entrando e saindo de histórias sobre homens que conquistam poder pela violência e descobrem, tarde demais, que não existe aposentadoria tranquila para quem chegou ao topo pisando em cadáveres. Barry Levinson leva essa constatação às últimas consequências em “The Alto Knights: Máfia e Poder”, colocando o ator dos dois lados de uma guerra que ajudou a definir a máfia nova-iorquina dos anos 1950. De Niro é Frank Costello, cerebral, paciente, interessado em transformar o crime numa espécie de empresa clandestina respeitável, e também Vito Genovese, a fera desconfiada que considera qualquer gesto de prudência uma demonstração de fraqueza. O artifício poderia virar uma brincadeira cara de caracterização, mas durante boa parte do filme funciona porque Levinson está menos interessado em convencer-nos de que são dois homens do que em mostrar como duas concepções de poder podem nascer praticamente do mesmo lugar.

Há uma ironia particular nessa volta de De Niro ao submundo. Depois de “O Irlandês” (2019), ele próprio dizia imaginar que não faria outra história de mafiosos, até receber das mãos do produtor Irwin Winkler um roteiro de Nicholas Pileggi, o jornalista e escritor cuja relação com a Cosa Nostra já havia dado origem a “Os Bons Companheiros” (1990) e “Cassino” (1995). O nome Alto Knights também não lhe era estranho: De Niro contou que frequentara quando jovem um clube social com esse nome. Esse pedaço de memória pessoal talvez explique por que o ator, aos oitenta e tantos anos, encara com tanta naturalidade um universo que já lhe pertence quase tanto quanto pertence aos personagens históricos. E o filme ganha alguma substância justamente por tratar aquela gente sem a aura juvenil do fora da lei charmoso; aqui há homens envelhecidos, gordos de poder, cercados por esposas, advogados, subordinados e fantasmas de decisões tomadas décadas antes.

Uma guerra entre velhos aliados

Tudo começa quando Genovese decide que Costello precisa morrer e entrega a Vincent “Chin” Gigante a tarefa de resolver o problema. Cosmo Jarvis aparece quase soterrado pelo peso histórico do personagem, mas dá conta do recado no atentado que coloca o enredo em marcha. Costello sobrevive ao tiro e poderia responder como mandam os manuais daquela confraria, acumulando corpos até que não houvesse mais adversários. É nessa recusa que “The Alto Knights” encontra sua melhor ideia. Frank entende que Vito é movido por uma espécie de fome que não admite saciedade, e que matá-lo significaria apenas inaugurar outra rodada da mesma guerra. Genovese, por seu turno, não consegue conceber que alguém possa voluntariamente abrir mão do trono. A paranoia o faz interpretar a prudência do antigo amigo como cálculo, cada silêncio como conspiração, cada aparente concessão como o primeiro movimento de uma vingança.

De Niro diferencia os dois por uma soma de detalhes que às vezes trabalha a favor do filme, noutras torna-se excessivamente visível. Costello fala como se tivesse tempo de sobra, usando as pausas para obrigar os outros a esperá-lo; Genovese parece viver alguns segundos à frente de si mesmo, incapaz de acomodar a própria ira. Próteses, cabelos, timbres e postura fazem o resto. Depois de alguns minutos, deixa-se de procurar a trucagem, embora Levinson nem sempre confie nessa naturalidade e insista um pouco demais na engenhosidade do duplo papel. Durante a filmagem, De Niro contracenava com outro ator que fazia provisoriamente o personagem oposto, trocando depois de posição para completar as cenas, detalhe técnico que ajuda a explicar por que os encontros entre Frank e Vito conservam alguma espontaneidade em vez de parecerem diálogos com um fantasma.

Costello diante da própria história

O problema maior está em outro expediente. Levinson põe um Costello envelhecido diante da câmera, narrando sua trajetória como se participasse de um documentário feito muitos anos depois, e mistura essa confissão com fotografias, material de arquivo e recriações. A princípio, a opção tem graça e combina com o método de Pileggi, sempre afeito a desmontar organizações criminosas mostrando quem obedecia a quem, quem devia favores, quem traía, quem deixava de falar. Aos poucos, contudo, Costello passa a explicar coisas que o filme poderia simplesmente deixar acontecer. “The Alto Knights” fica melhor quando abandona o professor de história e entra numa sala cheia de homens desconfiados. A audiência no Senado, em que Costello resolve falar quando seria mais seguro calar-se, tem mais energia que longos trechos de narração; a famosa reunião de Apalachin, em 1957, também permite a Levinson recuperar o humor meio macabro que sempre soube infiltrar em dramas mais sisudos. O filme adere à hipótese de que Costello colaborou para transformar aquele convescote de chefões num vexame policial, e a longa demora do velho mafioso pelo caminho, enquanto seus antigos colegas caminham para uma armadilha, é deliciosamente mesquinha.

Debra Messing, como Bobbie Costello, e Kathrine Narducci, na pele de Anna Genovese, impedem que os dois chefes existam apenas no círculo fechado de ameaças e reuniões. Elas oferecem outra medida para esses homens, bastante menos lisonjeira. O crime organizado pode chamar-se família, revestir-se de códigos e solenidades, exigir lealdade como uma religião e distribuir títulos como uma corte, mas quando a porta de casa fecha sobram sujeitos assustados diante de mulheres que os conhecem antes da lenda. Levinson não explora esse veio tanto quanto poderia, preferindo retornar a Vito e Frank e à estranha dança em que um deseja desesperadamente tudo o que o outro já não quer.

Dois destinos para o mesmo homem

É aí que De Niro finalmente encontra a razão para interpretar os dois. Costello e Genovese não são apenas rivais. São destinos possíveis de um mesmo homem, depois de uma vida em que dinheiro e autoridade confundiram-se com respeito. Frank já percebeu que sobreviver talvez seja desaparecer; Vito ainda acredita que só estará vivo enquanto todos tiverem medo dele. “The Alto Knights” tropeça quando tenta nos contar demais sobre a máfia, mas acerta ao deixar esses dois velhos diante um do outro, separados por uma mesa e por uma diferença que, naquele mundo, é quase incompreensível: um deles descobriu que já ganhou o bastante. O outro não saberia o que fazer se algum dia ganhasse tudo.


Filme: The Alto Knights: Máfia e Poder
Diretor: Barry Levinson
Ano: 2025
Gênero: Crime/Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
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